Preparando o Natal


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O Natal em que fiquei rica

Ser pobre e satisfeito é ser rico. E bastante rico.
William Shakespeare

Havia uma árvore naquele Natal. Não tão grande e frondosa como outras, mas estava pejada de enfeites e tesouros e resplandecia de luzes. Havia presentes, também. Alegremente embrulhados em papel vermelho ou verde, com etiquetas coloridas e fitas. Mas não tantos presentes como de costume. Eu já tinha reparado que a minha pilha de presentes era muito pequena.

Nós não éramos pobres. Mas os tempos eram difíceis, os empregos escassos, o dinheiro à justa. A minha mãe e eu partilhávamos uma casa com a minha avó e com os meus tios. Naquele ano da Depressão, toda a gente espaçava refeições, levava sanduíches para o trabalho e ia a pé para poupar nos bilhetes de autocarro. Anos antes da Segunda Guerra Mundial, já vivíamos no dia-a-dia, como muitas outras famílias, o que então se iria ouvir como slogan: “Usa-o, aproveita-o ao máximo; faz com que funcione, ou passa sem ele.” Continuar a ler

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Uma estrela – Manuel Alegre

Todos os anos, pelo Natal, eu ia a Belém. A viagem começava em Dezembro, no princípio das férias. Primeiro pela colheita do musgo, nos recantos mais húmidos do jardim. Cortava-se como um bolo, era bom sentir as grandes fatias despregarem-se da areia, dos muros ou dos troncos das árvores velhas, principalmente da ameixieira. Enchia-se a canastra devagar, enquanto a avó ia montando o que hoje se chamaria as estruturas, ou mesmo as infra-estruturas, junto da parede da sala de jantar que dava para o jardim. Eram caixotes, caixas de chapéus e de sapatos viradas do avesso, tábuas, que pouco a pouco ela ia cobrindo de musgo, ao mesmo tempo que fazia carreiros e caminhos com areia e areão. Mais tarde, os rios e os lagos, com bocados de espelhos antigos, de vidros ou mesmo de travessas cheias de água. Até que todos os caixotes, caixas e tábuas desapareciam. Ficavam montanhas, planícies, rios, lagos. Era uma nova criação do mundo. Aqui e ali uma casinha ou um pastor com suas cabras. E todos os caminhos iam para Belém.

Não era como o presépio da Igreja que estava sempre todo pronto, mesmo antes de o Menino nascer. A cabana, a vaca, o burro, os três reis do Oriente. Maria, José, Jesus deitado nas palhinhas. Via- se logo que era a fingir. Não o da avó, que era mais do que um presépio, era uma peregrinação, uma jornada mágica ou, se quiserem, um milagre. Nós estávamos ali e não estávamos ali. Continuar a ler


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O ano novo de Long-Long

Sem Título

— Acorda, Long-Long, estamos quase a chegar!
Long-Long olhou de relance os cestos cheios de salada apetitosa que o avô transportava. Era a primeira vez que ia à cidade.
Nunca vira tanta gente. Pessoas a falar, a andar, a deslocar-se em bicicleta, e a dançar as suas músicas preferidas. Sentia-se que o Ano Novo está perto, e que toda a gente se preparava para a festa. De repente, ouviu-se um grande estrondo.
— Aiah! — exclamou o avô, ao ver o pneu furado da carroça.
— Segura no guiador que eu vou lá atrás empurrar, avô! — ofereceu-se Long-Long.
O sol já ia alto e tinham de despachar-se para chegar ao mercado antes dos primeiros clientes. O avô estava preocupado, porque, se não vendesse a salada, a família não teria dinheiro para a festa do Ano Novo. Com a ajuda do neto, descarregou os cestos; em seguida, Long-Long foi procurar alguém para reparar o pneu.
— Aiah! — gritou uma rapariga, aos ziguezagues com a bicicleta.
Ia em direcção a Long-Long, mas conseguiu travar mesmo a tempo. O peixe fresco que comprara saltou do cesto e as laranjas espalham-se por todo o lado. Long-Long correu a apanhá-las e voltou a pô-las no cesto. A rapariga sorriu abertamente e ofereceu-lhe uma laranja. Continuar a ler


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Uma cidade, dois irmãos

Uma cidade, dois irmãos

Em tempos que já lá vão, Salomão reinava na cidade de Jerusalém. Durante o seu reinado, mandou edificar um templo magnífico para o povo. Era um edifício único, um lugar santo. Todos os dias, o monarca recebia no palácio a visita dos seus súbditos, a quem dava conselhos, quando lhos pediam, ou julgava aqueles que tinham infringido as suas leis.
Um dia, apresentaram-se diante do rei dois irmãos. O pai falecera há pouco e ambos disputavam a herança das suas terras. Pediram a Salomão que os aconselhasse.
— Segundo a lei, deveria ser eu a herdá-las! — disse um dos irmãos.
— Mas é de justiça que eu receba a minha parte! — exclamou o outro.
O rei, que era sábio, escutou-os primeiro. Mas, ao ver que cada vez gritavam e se encolerizavam mais, levantou a mão, ordenando que se calassem, e disse:
— Vou contar-vos uma história que ocorreu há muito tempo, Continuar a ler


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Uma colcha com história

Sem TítuloQuando a minha bisavó Anna veio para a América, trazia o mesmo espesso casacão e as botas altas que usava no trabalho rural. Mas a família deixou de trabalhar a terra. Em Nova Iorque, o pai passou a carregar coisas para uma camioneta, e o resto da família fazia flores artificiais o dia todo.
Todos tinham pressa, e havia sempre tanta gente na cidade! Não se comparava com a Rússia. Mas agora, esta era a sua casa, e a maioria dos vizinhos era exatamente como eles.
Quando Anna foi para a escola, o inglês que ouvia assemelhava-se a pedras a caírem em águas pouco profundas. Shhh… Shhhhh… Shhh… Mas seis meses bastaram para falar a nova língua. Já os pais nunca chegariam a aprender. Por isso, era ela que falava por eles.
As únicas coisas que tinha guardado da Rússia eram o seu vestido e Continuar a ler


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Uma festa no Ramadão

Sem TítuloLeena rodopiava, em frente à mesa da cozinha, sem fôlego e toda excitada, enquanto a mãe tirava um convite para fora do grande envelope. “Mãe, a Júlia vai ter um pónei na festa, e nós vamos poder montá-lo!” Flocos de confettis esvoaçaram para fora do envelope até à mesa. “Nunca na vida montei um pónei.”
Leena parou de rodopiar quando viu a expressão da mãe alterar-se. “O que se passa, mãe?” perguntou.
“Leena,” disse a Srª Ahmad suavemente, “a festa da Júlia é na próxima sexta-feira, durante as férias da Páscoa. Este ano, calha ser a primeira sexta-feira do Ramadão.”
“Ramadão?” Leena olhou a mãe nos olhos. “Eu vou fazer jejum nesse dia,” disse ela. “Mas não posso perder a festa!”
A mãe ficou calada por um momento. Depois disse Continuar a ler


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Bagels de pimento-jalapenho

Sem Título“O que é que hei de levar para a escola na segunda-feira, para o Dia Internacional?” pergunto à minha mãe. “A professora disse para levarmos algo da nossa cultura.”
“Podes levar algo gostoso da panadería,” sugere ela. Panadería é como a minha mãe chama à nossa padaria. “Ajuda-nos a fazer a massa no domingo — e poderás levar aquilo que quiseres.”
“Combinado,” respondo. Gosto de ajudar na padaria. Lá dentro está quentinho e tudo cheira mesmo bem.
Bem cedo, na manhã de domingo, quando ainda é noite escura, a minha mãe acorda-me.
“Pablo, está na hora de ir para o trabalho,” diz ela. Continuar a ler