Preparando o Natal

A festa das bolachas

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A festa das bolachas

Ninguém consegue fazer-te sentir inferior se tu não o permitires.
Eleanor Roosevelt

Pousei a pasta no balcão de pedra da cozinha e contornei com o dedo as letras douradas e em relevo, impressas no espesso cartão cor de marfim. “Está convidado/a para uma Festa de Bolachas de Natal”, podia ler-se no cartão. O convite era de uma executiva brilhante, criativa e poderosa que eu tinha conhecido há uns meses atrás. E fiquei surpreendida e entusiasmada pelo convite.
Conforme ela explicava no cartão, cada senhora levaria uma fornada de bolachas caseiras. Depois, misturaríamos uma amostra de todas as bolachas e levaríamos para casa, para a nossa família, um pacote de gulodices várias. Adorei a ideia de levar às minhas filhas adolescentes um daqueles conjuntos de doces caseiros. Imaginei uma sala repleta de cestos encantadores com doces e bolachas em forma de estrela, e uma abundante cobertura vermelha ou verde. Imaginei um vistoso cesto de bolachas em forma de Pai Natal, e uma fornada de bolachas com fragrâncias de gengibre e em forma de rena. Apetecia-me morder bolinhas de rum, chocolate pecaminosamente espesso, e até mesmo mordiscar uma fatia de bolo de frutas com sultanas douradas. Fantasiei acerca de bolachinhas com recheio, peganhentas da compota, e biscoitos macios e areados de manteiga derretendo-se na minha boca.
Depois é que me dei conta das implicações. Dada a natureza do convite e o facto de a sua remetente trabalhar numa empresa tão criativa, estas bolachas de Natal seriam não só bonitas, criativas e deliciosas, mas iriam ser apresentadas de uma forma festiva e invulgar. E eu não teria sequer tempo para me preocupar com o que haveria de vestir— só conseguia pensar no que iria confecionar.
Dado que nunca tinha confecionado nada a não ser a ocasional e balofa bolacha de pepitas de chocolate, de manteiga de amendoim ou de aveia, imaginei logo que as minhas ofertas iriam ser ignoradas e que eu iria sentir-me posta de lado, desajustada e infeliz. Mas porque é que a minha mãe não tinha sido uma doceira mais brilhante, lamentava-me, enquanto ligava a cafeteira e inspecionava o frigorífico para ver se encontrava algo para preparar para o jantar. Ela fazia apenas as bolachas mais simples que havia—bolachas de tâmara, de manteiga de amendoim e de pepitas de chocolate. Enquanto sorvia o meu chá, fervia a água para a massa e aquecia o frasco de um molho qualquer, analisei a situação. Antes mesmo de a massa estar pronta para passar pelo escorredor, veio-me um número à cabeça e marquei-o.
“Se eu decidir ir a esta festa de bolachas, ajudas-me com uma receita e uma ideia gira?” perguntei à minha amiga Judith, que era uma cinco estrelas para a doçaria.
“Claro que sim,” disse ela. Judith tinha o tipo de presença de espírito e à vontade ideais para este género de evento. Rapidamente, pus-me a pensar se ela não poderia ir à festa em meu lugar, e entregar-me depois os doces que me cabiam. E dei às minhas filhas as boas notícias: dentro de algumas semanas, iríamos ter o nosso festival privado de bolachas. Dado que os nossos doces eram geralmente produzidos em massa e fabricados por uma qualquer empresa gigantesca, ficaram excitadíssimas.
Uma semana depois, recebi um pacote grosso pelo correio. Judith tinha selecionado um conjunto de receitas “fáceis” para mim. Sorri, à medida que ia vendo as imagens. As bolachas eram maravilhosas e tinham mesmo o tipo de pincelada natalícia que me ajudaria a integrar no evento. Contudo, à medida que ia lendo as instruções de confeção, ia franzindo o sobrolho. Estas bolachas exigiam um nível de perícia culinária muito além das minhas capacidades e exigiam, também, formas específicas, utensílios gourmet, termómetros, ou qualquer outro ingrediente esotérico. Nunca conseguiria fazê-las.
O dia da festa das bolachas aproximava-se e eu não tinha nem receita, nem bolachas, nem sequer um plano. Além de não ter nada para vestir. Naquela noite, anunciei ao jantar: “Acho que não vou poder ir à festa das bolachas.”
“Porque não?” perguntou a minha filha Sarah. Tinha treze anos e levava as promessas e os planos muito a sério. Mais ainda, tinha um gosto sofisticadíssimo para doces e andava ansiosa por alargar o seu reportório.
“Não tenho nada de interessante para fazer. Não posso, pura e simplesmente, ir à festa com um insignificante tabuleiro de bolachas de chocolate de aspeto balofo”. A minha garganta apertou-se e desejei ser o tipo de mãe que consegue fazer surgir um suflê de chocolate a partir de ingredientes que, por acaso, se encontravam nos armários da cozinha.
“Porque não?” quis saber Jessica, a minha filha mais velha, que mesmo durante a época festiva se mantinha fiel a um guarda-roupa em tons negros. “Todas as outras pessoas vão aparecer aperaltadas e chiques. Tu vais representar a boa e velha abordagem do espírito natalício da classe média, das pessoas que trabalham. A tua simplicidade vai ser uma lufada de ar fresco.”
Respirei fundo e interiorizei as palavras dela. Na pior das hipóteses, podia sempre fingir que nunca antes tinha visto aquelas bolachas.
Naquela noite, as minhas filhas e eu fizemos bolachas de pepitas de chocolate. Pusemo-las, como habitualmente, numa simples lata forrada a papel de alumínio. Em honra da quadra, consegui até fazer aparecer um brilhante laço vermelho para colocar no cimo da lata. Passaram o meu guarda-roupa a pente fino e ajudaram-me a escolher algo de alegre para vestir.
Ir até à festa foi como ir ao país das fadas. Luzes de Natal contornavam as janelas e uma árvore resplandecente estendia os seus ramos pela sala. A mesa da sala de jantar parecia a capa de dezembro da revista Gourmet. Estrelas, corações, pinheiros de Natal, bonecos de neve, todos os símbolos da época brilhavam com cobertura de glacé e enfeites. Algumas bolachas pareciam aconchegadas em grinaldas feitas à mão. Outras brilhavam dentro de caixas em forma de estrela ou de árvore. Um bolo de frutas estava rodeado por um conjunto de renas em miniatura. Uma amorosa cesta de vime debruada a veludo vermelho guardava um monte de delicados merengues. Chocolate coberto de nozes dentro de uma caixa revestida a papel de fantasia e toda uma galáxia de bolachinhas coloridas em forma de estrela decoravam uma bandeja em prata. Admirei cada uma das apresentações, à procura, a todo o momento, de um sítio bem tranquilo onde pudesse enfiar a minha lata de bolachas de chocolate. Por fim, coloquei-as entre as bengalinhas de rebuçado e os Pais Natais de gengibre.
A minha anfitriã ofereceu-me uma taça de champanhe e apresentou-me a várias senhoras. A conversa fluiu. A dada altura, a anfitriã da festa anunciou: “Está na hora de juntar as bolachas.” Tinha um grande saco prateado para cada uma de nós e encorajou-nos a tirar vários exemplares de cada bolacha. Quando comecei a dar a volta à mesa, olhei de relance a minha humilde contribuição. “E se ninguém tirar uma bolacha? E se tiver que levar toda a fornada de volta para casa? E se…”, pensava eu, enquanto enchia o meu saco com amostras de cada deliciosa bolacha que ali havia.
“Quem fez as bolachas com pepitas de chocolate?” perguntou alguém. A sala ficou em silêncio. Concentrei-me nas bolinhas de rum que estavam na minha frente, avaliando as minhas opções. O silêncio tornou-se maior ainda e, por fim, confessei: “Fui eu.”Embora tenha falado bem baixinho, senti-me como se o anúncio troasse na sala como se saído de um alto-falante.
“Que ideia interessante”, disse alguém.
“Sim, eu nunca teria pensado nisso. É reconfortante, sabem, faz-me lembrar a minha mãe e a nossa casa”, acrescentou outra senhora.
Eu sorri, enquanto punha três bolinhas de rum no meu saco e me dirigia para as renas. Nessa noite, as minhas filhas e eu tivemos uma festa de Natal maravilhosa, que consistiu em bolachas, bolachas e mais bolachas.
“O mais curioso, Mãe,” disse Jessica, enquanto se inclinava para trás, satisfeita, “é que as tuas bolachas são na realidade tão boas como as outras. Não tão bonitas, mas igualmente deliciosas.”
“Mais deliciosas,” disse Sarah.
Eu sorri, pois era isso que eu pensava acerca das bolachas da minha mãe quando tinha a idade delas. Talvez houvesse mesmo algo de especial nas velhas e simples receitas, apresentadas da mesma velha e simples maneira, tão prática, tão desprovida de encanto e, no entanto, tão deliciosamente reconfortante… Tal como a sensação de voltar a casa.

Deborah Shouse

Jack Canfield, Mark Victor Hansen & Amy Newmark
Chicken Soup for the Soul – Christmas Magic
Chicken Soup for the Soul Publishing, LLC, 2010
(Tradução e adaptação)

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