Preparando o Natal

O Soldadinho de Corda

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Eu estava completamente de acordo em facilitar a tarefa do Menino Jesus naquela quadra do Natal, e deixá-lo tratar das prendas. Também tinha prometido não ir bisbilhotar pelos cantos da casa à procura do sítio onde estivessem escondidas, e eu costumava cumprir as minhas promessas.

O Pedro, filho do leiteiro, era um rapaz alegre e atrevido, mais forte e mais corajoso do que eu, mas dávamo-nos bem, quase sem brigas nem discussões.

Chegou a véspera de Natal. Os meus pais tinham saído para fazer as últimas compras. A casa ficara vazia. Eu e o Pedro estávamos sentados na sala a jogar o jogo chamado «Ó homem não te rales», mas como eu perdia quase sempre, desisti de jogar.

Não me lembro como aquilo aconteceu. De repente, começámos a rebuscar todos os cantos da casa. E quando levantámos a franja de um velho sofá, ficámos com o coração aos pulos. Acabávamos de descobrir o esconderijo das prendas do Menino Jesus!

Entre elas havia uma caixa embrulhada em papel cor-de-rosa, mas ainda sem fita.

— Vamos ver o que tem dentro — segredou o Pedro, como se alguém pudesse ouvir-nos. Pegou no embrulho, e foi-o abrindo devagar.

— Estupendo! É um soldadinho de corda! — disse ele. Olhei, e vi de facto um soldadinho fardado de azul e vermelho, com o seu capacete, e de espingarda ao ombro, deitado sobre papel de seda.

O Pedro agarrou-o e deu várias voltas à chave que o boneco tinha nas costas. Depois ouviu-se o matraquear da corda, e o soldadinho começou a estremecer como se tivesse vida.

O meu amigo pousou o boneco no chão e eu vi, com enorme espanto, o soldado começar a marchar, todo sorridente, muito direito e cheio de aprumo. Mas o soldadinho não ficou por aqui: a cada três ou quatro passos, levava a mão ao capa­cete e fazia a continência.

Nisto, ouviu-se uma chave rodar na fechadura da porta de entrada. Fiquei de braços caídos, petrificado de medo. Mas o Pedro, sempre mais corajoso, deu um pontapé no soldadinho, que continuou a marchar debaixo do sofá. Daí a uns segundos, entrou o meu pai na sala e, vendo-nos ali tão quietos, sorriu, ainda com as barbas cobertas de flocos de neve. Mas… aconteceu uma coisa horrível!

Afastando as franjas do sofá, e marchando muito aprumado em direcção ao meu pai, surgiu o soldadinho, que parou em frente dele e fez a continência.

O Pedro esgueirou-se da sala como uma sombra. O meu pai ficou a olhar para mim, muito sério, mas não disse nada, e saiu também. Fiquei só na sala, sentindo tudo andar à roda. Mas, ali na minha frente, o soldadinho continuava a marchar, com o seu sorriso satisfeito.

Em casa, ninguém pronunciou uma palavra sobre o assunto. Nessa noite não dormi nada, ouvindo a todo o momento o matraquear do soldadinho. E, no dia seguinte, quando se abriu a porta da sala para a ceia, procurei disfarçadamente o meu soldadinho entre as prendas postas em volta da árvore de Natal. Mas não o encontrei, e também não disse nada aos meus pais.

Cheguei a convencer-me de que tudo aquilo não passara de um sonho mau. E só no ano seguinte tornei a ver, caído atrás do presépio, cheio de pó, o meu soldadinho de corda.

Tiny Fierz-Herzberg

Ricardo Alberty; Maria Isabel Mendonça Soares (org.)
O livro de ouro do Natal
Lisboa, Editorial Verbo, 1978

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