Preparando o Natal

Clara – a menina que sobreviveu ao Holocausto

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 Uma história tão tocante quanto O diário de Anne Frank e A lista de Schindler. É o que se pode dizer deste livro, baseado no diário que a judia Clara Kramer escreveu em plena Segunda Guerra Mundial, quando tinha apenas 15 anos.

A 21 de julho de 1942, os Nazis conquistam a cidade polaca de Zolkiew, originando a deportação e o massacre de milhares de judeus. A família de Clara consegue esconder-se num bunker que apressadamente escavaram à mão. A viver por cima deles e a protegê-los, estava a família Beck. Embora se proclame antissemita, o Sr. Beck arrisca diariamente a vida pelos dezoito judeus que acolheu.

Apesar das condições de vida inumanas, dos relatos diários da morte de familiares e amigos e do terror constante, os laços de amor e solidariedade que se estabeleceram entre eles dão conta da grandeza que faz pulsar o coração humano.

Contra todas as probabilidades, Clara sobreviveu para contar a sua história.

O seu diário está exposto no museu Memorial do Holocausto, em Washington.

O bunker ainda existe.

Dos cinco mil judeus que habitavam Zolkiew antes da guerra, sobreviveram menos de sessenta.

Sem Título


Um presente do Sr. Beck

Dezembro de 1942

 

 Os dias passam na maior monotonia, um igual ao outro. Cá em baixo, fazemos o pequeno-almoço e a ceia. Toda a gente se lava uma vez por semana na cozinha, lá em cima, porque está frio cá em baixo… Na noite de Natal fecharam todas as portas e janelas e convidaram-nos para jantar. Foi maravilhoso. Cantámos cânticos de Natal, quase esquecemos os nossos problemas, mas, acima de tudo, fartámo-nos de comer. Depois tivemos de correr para baixo e esconder-nos de novo, porque alguém bateu à porta.

Depois de dois dias no bunker, a realidade da nossa reclusão apoderou-se de nós. O otimismo dos homens, que diziam que a guerra acabaria em poucas semanas, desapareceu. Eles julgavam que o exército alemão não conseguiria resistir ao gelo do inverno russo e recuaria. Mas estavam enganados. Os Alemães ainda controlavam Estalinegrado e estavam a avançar para a Ucrânia e para a Crimeia.

Os homens acompanhavam a guerra com o interesse e a paixão dos generais que estavam a travá-la. O Sr. Beck tinha um rádio ilegal no sótão que, se descoberto, significaria a sua morte, mas estava decidido a saber o que realmente acontecia. De vez em quando, convidava o Sr. Patrontasch[1] a subir e a ouvi-lo com ele. O Sr. Beck trazia também os jornais, e os homens sentavam-se juntos, numa nuvem de fumo de cigarro, traçando as linhas da frente num mapa e assinalando a caneta as cidades tomadas. Mas pouco era o que nos encorajava.

Um dia, eles desceram e falaram-nos de uma conferência em Teerão onde Estaline, Roosevelt e Churchill se iam reunir para discutir a guerra. Não era bem claro o que iam discutir. Teerão ficava muito longe, era como se fosse uma história das Mil e Uma Noites. A única notícia minimamente boa era que os Russos estavam a lançar uma ofensiva de inverno para recuperar Kiev, a quinhentos quilómetros de nós, e havia relatos de que o avanço dos Alemães estava a abrandar. Mas tudo isto acontecia muito longe. Parecia que nada ia mudar para nós durante muito tempo.

Tínhamo-nos preparado para estar no bunker durante poucas semanas. Eu trouxera apenas alguns livros. Não tínhamos trazido roupas ou comida suficiente nem, o mais importante de tudo, coisas para os Beck venderem. As nossas peles, as joias da minha mãe, os tapetes persas, os edredões e colchões de penas, as pratas e as porcelanas da família, tudo isso estava escondido atrás da parede falsa na cave das nossas vizinhas. Tínhamos medo de que as coisas fossem roubadas pelos Nazis, mas quem sabia se alguma vez poderíamos voltar a apreciá-las? Estávamos a morrer gelados e, a menos de cinquenta metros, tínhamos tudo de que precisávamos para nos sustentar…

Só a Sra. Fanka Melman trouxera loiças e prata para o bunker. Eu compreendia por que razão o fizera. Claro, era humano uma pessoa querer ter consigo algo de pessoal, algo de belo. Pobre Sra. Melman, forçada a viver debaixo do chão da sua própria casa.

Mas, mais do que a falta de conforto ou de comida, ou mesmo do que a realidade da guerra, o que me apertava o coração e enchia a mente eram as recordações escaldantes dos últimos dez dias, desde a investida no dia 22 de novembro, durante a qual os Nazis tinham assassinado três mil judeus, à nossa busca desesperada por um protetor e à despedida angustiada das nossas famílias.

Numa cidade como a nossa, em alturas melhores, a morte de um afetava-nos a todos. Na nossa tradição, uma morte rasga o tecido do mundo. Estamos todos ligados. Por casamento. Por negócios. Por amizade. Por trabalho. Pelas dezenas de organizações que sustentam a nossa comunidade.

Um dia, do nada, a minha mãe olhou para mim e disse:

— Clara, vais escrever um diário.

Eu fiquei espantada.

— Para quê? Eles vão matar-nos, de qualquer maneira.

— Se nos matarem, alguém encontrará o diário e ficarão a saber aquilo por que passámos.

E de novo me fixou. Queria que eu começasse naquele preciso momento. Pegou num dos lápis que o Sr. Patrontasch usava para assinalar o avanço da guerra e deu-mo. Eu não tinha nada onde escrever, mas nem sequer toquei nesse assunto porque sabia que não faria qualquer diferença. A nossa mãe chamava-se Salka, a Cossaca…. Olhei em volta, peguei num dos meus livros e comecei a escrever nas margens. Mas, assim que comecei a escrever, converti-me à ideia: seria um registo. Era algo para eu fazer todos os dias, algo com um objetivo. Era uma forma de contra-atacar.

Naquelas primeiras semanas, enquanto eu enchia rapidamente as margens dos meus livros, tivemos de encontrar maneira de onze pessoas viverem quase em cima umas das outras, num espaço que não era maior do que a cocheira de um cavalo.

O espaço principal que tínhamos criado ficava mesmo por baixo do quarto dos Beck[2] e não tinha mais de três metros quadrados e um metro e trinta de altura. As tábuas do chão por cima de nós eram o nosso teto. Quando começámos a trabalhar, o espaço estava repleto de gerações e gerações de teias de aranha. As reentrâncias do chão, por cima de nós, eram usadas para guardar as roupas, que enrolávamos e prendíamos com um cordel. As fundações de lajes, que acompanhavam divisão a divisão a planta da casa, eram as nossas paredes.

Logo atrás do alçapão, escavámos um espaço para uma mesa de tábuas, que era usada para preparar e guardar a comida. Na parede à esquerda do alçapão, e ao longo da parede adjacente, ficava a área de dormir. Tínhamos feito plataformas de terra que cobrimos com tábuas. Em cima das tábuas, pusemos os nossos colchões de palha. Os Patrontasch dormiam na parede ao lado do alçapão. Os Melman e a nossa família, na parede adjacente. Durante o dia, enrolávamos os colchões para termos espaço para nos sentarmos e podermos comer com os pratos no colo.

Em frente do alçapão havia outra parede das fundações de lajes, que ficava por baixo do corredor central da casa. Fizemos outra pequena mesa de madeira para a placa elétrica, encostada a esta parede de pedra. Não queríamos a placa elétrica perto de uma superfície que pudesse arder. Tínhamos tirado pedras suficientes para criar uma «porta» para o corredor entre as duas paredes de apoio, que formavam um túnel, com um metro e meio de largura, por baixo do corredor lá em cima.

À esquerda desse túnel, colocámos os nossos baldes para as necessidades. Mais ao fundo do túnel criámos outra «porta» à direita, que levava ao bunker original, com a cobertura de terra.

Uma manhã, o Sr. Patrontasch acordou como se tivesse o cérebro a arder. Sem uma palavra, pegou na pá e começou a cavar um pequeno buraco mesmo no meio do bunker.

Ninguém disse nada, mas todos observámos com curiosidade. Tudo o que pudesse quebrar a rotina era apreciado, e ver o Sr. Patrontasch, baixo e redondo, a cavar com a fúria de um homem possuído, era sem dúvida uma quebra da rotina. Tínhamos o nosso Talmude de interpretações no bunker. Uma vez que éramos três famílias a viver em cima umas das outras, quando um de nós coçava a cabeça, o ar enchia-se com a caspa de todos. Se um de nós tivesse pegado fogo ao próprio pé, ninguém teria pestanejado. Assim, durante muito tempo limitámo-nos a observar enquanto o Sr. Patrontasch cavava com o sorriso de um génio satisfeito no rosto. Por fim, a mulher dele, a Sra. Sabina, não aguentou mais.

— Nem sequer te vou perguntar o que estás a fazer. Diz-me só o que estás a pensar fazer com a terra.

Mas o Sr. Patrontasch não respondeu e pegou numa fita métrica para avaliar a profundidade do buraco. Em seguida resmungou e continuou a cavar.

Depois de mais algumas pazadas, mediu novamente e, sem prestar atenção a nenhum de nós, enfiou os pés no buraco e endireitou lentamente o corpo atarracado até estar direito, com a cabeça pouco abaixo do teto do bunker. Podia ser uma cena de um filme mudo. Mas não era. Era a nossa vida. Tive vontade de aplaudir, e todos entrámos dentro do buraco, à vez. Esticar o corpo, que há vários dias estava encolhido como uma concertina, foi um prazer como nunca tinha sentido antes. Eu não teria direito a nenhum exercício se não fosse a Sra. Julia[3], que, graças a Deus, uma vez por semana, me chamava a mim e à minha irmã Mania lá para cima para a ajudar a limpar, esfregar soalhos, limpar a cozinha, a casa de banho. Mas eu não me importava. Para mim, era tudo maravilhoso.

Da primeira vez que a Sra. Julia nos chamou lá acima para encerar os soalhos, Mania e eu pusemo‑nos de gatas com grandes panos de pele de ovelha que enfiávamos nas mãos como luvas. Ala[4] chegou a casa do trabalho, viu-nos de gatas e sorriu-nos.

— Não é assim que se faz.

Eu não era especialista em polir soalhos, mas tinha ideia de como se fazia. A primeira coisa que Ala fez foi ligar o rádio e procurar uma estação com música de dança. Depois descalçou-se, enfiou os pés nos panos e começou a dançar ao som do swing da rádio. Mania e eu seguimos-lhe o exemplo e começámos a dançar, sozinhas, uma com a outra, ao princípio timidamente, depois mais depressa, mais devagar, comicamente, a fazer palhaçadas, a dançar louca e desvairadamente, até estarmos demasiado exaustas para dar mais um passo e os soalhos estarem a brilhar. A Sra. Julia recompensou-nos com pãezinhos e água fresca do poço. Guardei a comida para partilhar com as outras crianças no bunker, mas bebi a água toda sozinha.

E de vez em quando, muito de longe a longe, íamos lá acima lavar o cabelo. Nem tenho palavras para explicar o prazer que isso nos dava. O cheiro a sabão e o luxo da água quente eram tão deliciosos que eram quase insuportáveis. A Sra. Julia despejava água quente sobre a minha cabeça e esfregava-me o couro cabeludo com os dedos. Eu desejava que ela não acabasse nunca. Lá em baixo, a água era medida às colheres e estava geralmente fria; muitas vezes, tínhamos de escolher entre beber ou lavar-nos. Mas lá em cima o vapor da água quente erguia-se de um fogão a lenha e o cheiro a pão quente, sopa de beterraba e pirogies[5] de cogumelos e queijo enchia o ar. Mesmo que fosse apenas por alguns minutos, para mim, era o suficiente.

A nossa família, à exceção da minha mãe, que tinha asma e problemas de tiroide, sempre gozara de excelente saúde. Isto era algo que eu costumava tomar como certo. Mas, com uma epidemia no gueto e onze pessoas a viverem em cima umas das outras, a lavarem-se apenas uma vez por semana, a respirarem o mesmo ar húmido e bafiento, eu estava preocupada com ela. Tínhamos tido sorte de viver praticamente ao lado de um hospital, e havia também vários consultórios médicos perto da nossa casa. Mas agora, se houvesse uma urgência, não haveria médicos nem hospital. Nem sequer tínhamos um estojo básico de primeiros-socorros. Mas, até então, a nossa mãe não tivera sequer um espirro ou um leve ataque de falta de ar.

Tínhamos adquirido o hábito de esperar ver o Sr. Beck uma ou duas vezes por dia. Regra geral era ele que nos trazia a comida, e não a mulher, que não conseguia descer para o bunker. Eu via que ele gostava da companhia dos homens e que adorava conversar. Mas raramente falava com as crianças. Ele intimidava-me e eu sentia-me nervosa quando ele estava por perto, por mais à vontade que ele parecesse. Tinha medo de dizer qualquer coisa que o aborrecesse ou pusesse em perigo, de alguma maneira, o nosso lugar no bunker.

Claro que não me lembrava de alguma vez ter dito alguma coisa que aborrecesse um adulto…. Esse era mais o papel de Mania. Mas percebi que ele reparava em mim, e chegou a fazer um ou dois comentários sobre o facto de eu ter sempre o nariz enfiado num livro. A minha reação foi de embaraço. Não estava habituada a que homens estranhos falassem comigo. Estava a começar a aperceber-me de como fora protegida. Os adultos com quem conversava eram da minha família, ou professores e amigos dos meus pais. Apesar de haver centenas de pessoas como o Sr. Beck em Zolkiew, ao perto, ele era para mim tão exótico como um leão.

A meio de dezembro, a nossa mãe começou a preocupar-se por não termos presentes adequados para dar aos Beck no Natal. Vasculhámos as nossas coisas e nada parecia suficientemente bom. Eles estavam a arriscar a vida para nos salvar e nós não tínhamos nada decente para lhes dar.

Na tarde da véspera de Natal, o bunker encheu-se com os cheiros maravilhosos dos cozinhados da Sra. Julia e, pela primeira vez em meses, nós tínhamos algo por que ansiar. Ala levou Igo e Klarunia[6] para cima e deu-lhes um rebuçado, o que, por si só, já era uma prenda. Decidimos oferecer ao Sr. Beck uma das camisolas do nosso pai. A mala de cabedal da nossa mãe seria para a mulher e a travessa de tartaruga de Mania para Ala. Embora fossem objetos usados, eram o mais parecido com presentes que conseguimos encontrar.

Nessa noite, quando subimos, não sentíamos que estávamos a correr um risco assim tão grande ao sair do bunker: o Sr. Beck parecia achar que as SS e a Gestapo nos deixariam em paz na noite de Natal. Nenhum de nós estava preparado para o que nos aguardava, enquanto emergíamos da cave. As cortinas estavam bem fechadas e as salas iluminadas com a luz suave de velas. Até havia uma árvore de Natal, que Ala e o Sr. Beck tinham cortado na floresta do outro lado da estação de comboios. A árvore estava decorada com velas e os ornamentos da família Beck, bolas de vidro, anjos e magos feitos de madeira e de papel.

A Sra. Julia e Ala tinham posto a mesa para catorze, com as melhores loiças e a melhor toalha da Sra. Melman. A Sra. Julia fizera todos os pratos tradicionais de Natal polacos. Eu não fazia ideia de onde teriam conseguido arranjar tanta coisa durante a guerra, mas tudo o que ela disse foi:

— O Beck tem os seus truques.

Ela amava-o muito, orgulhava-se dele e chamava-lhe o seu mágico.

Estava um challah[7] enorme em cima da mesa. Havia os pratos tradicionais, sopa de beterraba e pirogies com cogumelos e chucrute, bem como os vários pratos de carpa. A Sra. Julia apontou para os pratos um por um, dizendo os seus nomes. Um deles chamava-se vyba zwdowski, «peixe judeu», que era peixe gefilte[8]. Claro que eu já tinha visto a Sra. Julia ajudar a minha mãe a fazer peixe gefilte em dezenas de ocasiões, mas não fazia ideia de que era um prato que se comia no Natal, ou mesmo que os Polacos o comiam. Guardei o meu espanto para mim, mas tenho a certeza de que ele era evidente nos meus olhos enquanto estes seguiam os dedos da Sra. Julia à volta da mesa. Não sei por que razão fiquei tão surpreendida, tendo em conta que a carpa era um alimento básico tão importante nas nossas dietas.

Embora eu frequentasse uma escola polaca e tivesse amigos polacos, este era o primeiro jantar de Natal para o qual era convidada. A mesa estava repleta de muitas coisas que eu não compreendia. Contei os lugares e vi que não eram catorze, mas sim quinze. Perguntei a mim própria quem seria o convidado extra, uma vez que ninguém que nós conhecêssemos era «convidado» dos Beck.

A Sra. Julia viu que eu estava a olhar e explicou-me que o prato a mais era para o «convidado inesperado». Em toda a Polónia, as mesas do jantar de Natal eram postas com um lugar a mais, à espera de uma batida na porta que pudesse assinalar a chegada de um estranho com fome. Era uma velha tradição polaca.

— Quando há um convidado na casa, Deus está entre nós — disse-nos ela.

Eu vivera na Polónia toda a vida e nunca ouvira falar dessa tradição. Era difícil acreditar que havia tanto que não sabíamos uns sobre os outros. O meu pai estava muito comovido. E ergueu o copo.

— Nesse caso, sei que esta noite a vossa casa está cheia de Deus.

A sala estava iluminada apenas por velas e, durante aqueles breves momentos, a guerra pareceu desaparecer na escuridão para além do brilho da luz. Todos sabíamos que a guerra continuava. Estávamos no bunker há três semanas e, por mais terrível que a nossa situação nos parecesse, não fazíamos ideia do horror que nos esperava.

O gueto tinha apenas três semanas. Ouvíramos falar dos campos e das deportações; tínhamos assistido ao homicídio dos nossos líderes judeus e dos principais rabis em Zolkiew; sabíamos que tínhamos pago cada dia das nossas vidas com as riquezas da nossa comunidade, mas não havia nada na nossa imaginação coletiva que nos pudesse preparar para aquilo que ainda viria e para tudo o que veríamos.

Assim, os sentimentos de boa vontade, gratidão e companheirismo afastaram o nosso medo para os cantos mais distantes daquela sala maravilhosa e das nossas mentes. Eu não estava sequer a pensar na guerra, apenas naquilo que tinha à frente dos olhos sobre a mesa.

A Sra. Julia estendeu então a mão para o centro da mesa e retirou uma cobertura de cetim bordado de cima de uma travessa, revelando um pão enorme.

— Antes de jantarmos — disse, pegando na travessa e colocando-a em frente do meu pai —, cada um de nós tem de comer um pedaço deste pão.

Outra tradição que eu nunca tinha visto, mas que fazia eco da nossa tradição de começar as refeições com a bênção do pão.

O Sr. Beck explicou-nos esse costume.

— Quando comemos o pão, perdoamos os pecados cometidos contra nós ao longo do último ano e desejamos felicidade para todos no ano vindouro.

O meu pai explicou depois aos Beck as nossas tradições judaicas, o copo de vinho a mais para Elias na Páscoa e a expiação anual dos nossos pecados no Yom Kippur. Sempre tínhamos parecido tão diferentes dos Polacos, e aquilo que eu sabia sobre a religião deles — as histórias dos santos, a missa em latim, as abadias isoladas, as freiras que viviam enclausuradas, os rituais da comunhão e da confissão, a ideia da ressurreição, a devoção dos camponeses polacos — era, ao mesmo tempo, familiar e estranho, reconfortante e assustador. Era peculiar e maravilhoso e desconcertante ver que os costumes deles refletiam alguns dos nossos.

A nossa mãe disse:

— Lamento muito que, em todos os anos desde que nos conhecemos, esta seja a primeira ocasião festiva que passamos juntos.

E nestas palavras estava um pedido de desculpas por todas as vezes em que tratara a Sra. Julia como uma criada e não como uma amiga. Esta limitou-se a sorrir, mas compreendeu o significado mais profundo das palavras ditas. Todos nós, que devíamos a vida a estas pessoas, o compreendemos também. Mas a nossa gratidão, apesar de muda, deixava os Beck pouco à vontade.

O Sr. Beck levantou-se então e disse bem alto, erguendo o copo:

— Que haja muitas mais.

Eu estava a começar a amar os Beck como uma mãe e um pai. Porque agora, ainda mais do que os meus próprios pais, o Sr. e a Sra. Beck eram responsáveis pela minha vida, por todas as nossas vidas. Estavam a arriscar a vida por nós, e a arriscar também a vida da sua própria filha.

Houve risos e piadas e brindes. A vodka era uma das coisas que Judeus e Polacos tinham em comum — pelo menos, os homens.

As ruas lá fora estavam agora cheias de pessoas a entoarem cânticos de Natal, e as suas vozes só intensificavam a maravilha dessa noite. Os Polacos eram profundamente religiosos e os cânticos eram geralmente cantados, não apenas com espírito, mas com uma profunda devoção e amor. Depois do kutja, que é um prato tradicional polaco feito de cevada, nozes e mel, e um dos meus pratos preferidos desde que o provei, a Sra. Julia e Ala levantaram a mesa e chegou a altura de também nós entoarmos cânticos de Natal. As cortinas estavam corridas e as nossas vozes erguidas com as dos Beck não atrairiam as atenções. Pela primeira vez em anos, eu sentia que tinha motivos para cantar, e que era seguro fazê-lo.

Ala, o Sr. Beck e a mulher começaram a cantar: «Jesus, Filho do Céu»(Jezus Malusienki), «Para a Cidade de Belém» (Przybiezeli do Betlejem), «Vamos Todos» (Pójdzmy Wszyscy), «Rejubila Belém» (Dzisiaj Betlejem), «Deus Nasceu» (Gdy sie Chrystus rodzi), «Na Noite Silenciosa» (Wsrod Nocnej Ciszy), «Dorme, Menino Jesus» (Lulajze Jezuniu). Eu e Mania conhecíamos todas estas canções há anos. Frequentávamos escolas polacas, onde as aulas eram dadas por freiras, e cantávamos estes cânticos desde os cinco anos de idade. Mania e eu nunca nos tínhamos dado ao trabalho de partilhar com os nossos pais esta parte da nossa educação, portanto podem imaginar a surpresa deles quando nos juntámos aos Beck. A voz de Mania era maravilhosa, enquanto ela fazia as harmonias acima e abaixo de nós, connosco e sozinha.

Há três semanas que nos mantínhamos tão silenciosos quanto possível, pesando e avaliando as consequências de cada palavra antes de a pronunciarmos. Falávamos tão pouco, apenas uma ou outra palavra de vez em quando, para transmitir amor ou afeto, alegria, raiva ou frustração. E agora aqui estávamos nós, a cantar, se não a plenos pulmões, pelo menos com tanta emoção e alegria como Mania e eu alguma vez tínhamos cantado fosse o que fosse.

Olhar para os rostos dos meus pais, e também dos Melman e dos Patrontasch, dava-nos a sensação de lhes termos pregado a todos uma partida maravilhosa… como se as duas meninas judias tivessem conspirado durante anos para poderem pregar-lhes agora esta partida. Durante as poucas horas em que estivemos lá em cima, com os Beck, não houve guerra, nem gueto, nem fome, nem medo.

Depois do fim de uma canção, o Sr. Beck saltou da cadeira, como um homem em chamas, e correu para o armário, de onde tirou presentes embrulhados em simples papel de seda ou de jornal. Ficámos estupefactos. Era a ocasião festiva deles. Nós tínhamos as nossas prendas em segunda mão para os Beck, mas católicos a darem presentes a judeus era algo que eu nunca tinha visto nem ouvido falar em toda a minha vida…

O Sr. Beck tinha feito um urso dançante para o pequeno Igo, e Ala deu a Klarunia uma das suas bonecas de trapos. Havia ainda maços de cigarros para os homens. Ala dera a Mania uma das suas travessas, que ela colocou imediatamente no cabelo. Correu para o espelho para ver como lhe ficava. O Sr. Beck deu-me um pacote embrulhado em papel de jornal. Era achatado e, ao princípio, desejei que fosse um livro. Estava louca por ter um livro novo. Abri-o. Lá dentro estava um caderno de composição com capa preta e papel pautado, igual aos muitos cadernos de composição que eu usara nos meus anos de escola e nos quais nunca pensara duas vezes.

— Para a nossa pequena escritora — disse ele. — Sei que serás uma escritora famosa um dia, Clarutchka, e só te peço que digas coisas boas sobre mim.

O Sr. Beck sabia que eu estava a escrever um diário e que não tinha onde escrever. Deu-me também um lápis azul, que afiara com o seu canivete. E percebeu como eu ficara feliz… embora a minha timidez não tivesse deixado que o agradecimento correspondesse à profundidade dos meus sentimentos.

Em toda a minha vida, sempre colocara o meu pai acima de todos os homens. Cresci, segura e feliz, sob a sombra e a luz da vida dele. Ele, a minha mãe e o resto da família eram o bastante para mim. Pensava que o Sr. Beck mal reparava em mim, se é que reparava, e, de alguma forma, ele encontrara aquilo que seria a minha salvação. As nossas vidas não continuariam a ser escritas nas margens de livros velhos. O que quer que nos acontecesse, seria devidamente registado em papel pautado, com um lápis azul afiado, num caderno com capa dura.

Nenhum de nós estava a pensar para além da guerra, ou até do dia seguinte, mas o Sr. Beck sabia que o que nos estava a acontecer era importante. As nossas vidas — as nossas histórias, e a dele — tinham significado. Mesmo que tudo o que tivéssemos para continuar a lutar fosse um caderno de composição e um lápis azul.

Depois ouvimos bater à porta e, com o terror, as conversas silenciaram-se. Corremos para o quarto e descemos pelo alçapão, um após o outro. Ficámos à escuta, para tentar perceber quem seria. Não eram as S.S., a Gestapo ou os casacos azuis (a polícia ucraniana, feroz na sua perseguição aos judeus).

Eram amigos dos Beck que andavam a entoar cânticos de Natal. Tinham batido à porta com o intuito de cantar para eles e de que os Beck se juntassem a eles numa canção. Claro que os Beck se juntaram aos cânticos e nós ficámos a ouvir as suas vozes na escuridão. E eu cantei também, na minha cabeça, até adormecer.

Clara Kramer
Clara – a menina que sobreviveu ao Holocausto
Porto, Ed. ASA, 2010
(Adaptação)

[1] Eram três as famílias judias escondidas no bunker: os Patrontasch, os Melman e os Schwarz.

[2] A família Beck, não judia, tinha sido autorizada, como tantas outras, a ocupar as casas dos judeus desalojados, e vivia agora na residência dos Melman.

[3] Mulher de Beck e, anteriormente, serviçal em casa dos Schwartz.

[4] Filha dos Beck.

[5] Pequeno invólucro de massa recheada com puré de batata, carne, queijo ou vegetais e depois cozido ou frito (prato típico da Europa de Leste). (N.T.)

[6] Primos de Clara Schwarz.

[7] Pão branco levedado, recheado com ovos, preparado especialmente para o shabbat judaico. (N.T.)

[8] Peixe misturado com ovos, pão ázimo e tempero, moldado em bolas ou rolinhos e cozinhado em lume brando em caldo de vegetais. (N.T.)

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