Preparando o Natal

A casa dos Griswold

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A casa dos Griswold

Quem dera pudéssemos pôr um pouco do espírito natalício em frascos
e abrir um todos os meses.
Harlan Miller

Todos os Natais, desde há quinze anos, que o meu idoso vizinho Sr. Jones começa a expor decorações natalícias elaboradas, cerca de três semanas antes do Dia de Ação de Graças. Sendo eu uma pessoa bastante razoável, sempre achei que o tempo e trabalho gastos neste imenso projeto eram completamente absurdos, e que começar a exibir toda essa “alegria festiva” tão cedo era ainda mais absurdo.
Tão pouco conseguia imaginar por que razão alguém quereria ter o trabalho de montar: milhares de cordões de luzes coloridas; coroas de grinaldas e árvores decoradas em cada janela; um coro iluminado de cantores natalícios, alinhados ao longo do acesso à casa, que cantavam efetivamente um completo e impactante reportório de todas as músicas favoritas da quadra; um presépio em tamanho real mesmo no centro do jardim, que incluía vários animais de plástico, um anjo mensageiro pairando ao lado de uma enorme estrela de Belém, com os três Reis Magos acocorados em reverência à Sagrada Família; e uma oficina do Pai Natal que se estendia por toda a fachada da casa, com uma linha de montagem e uma miríade de gnomos em miniatura, trabalhando com todas as forças que os seus alegres coraçõezinhos permitiam para acumular uma pilha imensa de embrulhos brilhantes no final da passadeira rolante.
Tudo isto me parecia uma enorme extravagância, especialmente para um homem que, obviamente, já não estava no auge da sua juventude. E não podia deixar de sofrer quando pensava no pobre e velho Sr. Jones a ter que recolher toda aquela tralha de novo e encontrar um sítio para a guardar até ao ano seguinte.
Tal como o Scrooge, eu ria à socapa sempre que passava por aquela ostentação tão elaborada, enquanto fazia a minha caminhada matinal; tinha apelidado a casa dos Jones de “A casa dos Griswold” por causa do filme Que paródia de Natal!. “Queres encontrar a minha casa?” perguntava a quem me visitava durante a época de Natal. “Vira à esquerda na casa dos Griswold e irás lá ter pela certa.”
No entanto, por mais festiva que a casa dos Griswold estivesse, este ano eu albergava sentimentos de solidão e desespero sempre que por lá passava todas as manhãs. A magia que à noite ganhava vida parecia tristemente insípida e mortiça à luz do dia. “Tal e qual uma ilusão, um faz-de-conta,” sussurrava eu tristemente para mim própria, pensando no ano horroroso que tinha passado a tentar manter-me otimista e a ser um apoio para três familiares próximas que tinham sido diagnosticadas, umas a seguir às outras, com diferentes formas de cancro. Por vezes, nos dias mais sombrios, quando os efeitos devastadores da quimioterapia as deixavam completamente em baixo, e as dúvidas medonhas sobre se os meus entes queridos iriam sobreviver me davam calafrios, o meu coração e o meu pensamento estavam tão tristes e desanimados quanto a casa dos Griswold durante o dia.
Uma noite, quando ia a conduzir para casa, a cerca de duas semanas do Natal, sentia-me bastante desanimada. A minha nora Amy tinha tido um dia particularmente difícil na batalha contra a doença, e eu tinha passado aquelas longas horas de aflição junto dela, sentindo-me impotente e desesperada por não conseguir anular a sua dor. Que importância tinha tudo o que tivesse a ver com o Natal quando a minha mãe, a minha sobrinha e a minha nora estavam a sofrer tanto? Naquele dia, a batalha de Amy, em particular, parecera-me uma luta sem esperança. Exausta e deprimida, conduzi, pelas ruas cobertas de neve, até casa.
“Vira à esquerda na casa dos Griswold,” resmunguei distraidamente para mim própria, sendo a viragem à esquerda ainda a alguns quarteirões de distância. Foi então que algo de extraordinário aconteceu. Quando vi as luzes deslumbrantes e o alvoroço que são a alma e a magia do Natal irromper da propriedade do Sr. Jones, iluminando toda a vizinhança numa explosão de cor, fiquei sem respiração. A tristeza que cobria a propriedade dos Jones durante o dia tinha desaparecido completamente e, em seu lugar, os pequenos e alegres duendes faziam os seus brinquedos maravilhosos. Árvores de Natal iluminadas e coroas de grinaldas exibiam-se, com esplendor, por de trás de cada janela em relevo. Quilómetros e quilómetros de minúsculas luzinhas coloridas inundavam o telhado e rolavam em cascata pela fachada da casa abaixo. Ao ouvir a música, abrandei o carro e baixei o vidro. A fila de cantores entoava “Silent Night,” o meu cântico de Natal favorito.
Os meus olhos recaíram sobre a Sagrada Família, enquanto flocos de neve caíam doce e reverentemente, sobre o presépio coberto de palhinhas. De repente, o meu coração encheu-se de tanto respeito e reverência que dificilmente consegui conter a emoção. Diante do meu coração destroçado, e disposto como um resplandecente conjunto de orações atendidas, estava o verdadeiro significado do Natal.
Agora já não rio à socapa quando passo pela casa dos Griswold. Nem troço dos preparativos anuais que o Sr. Jones diligentemente faz com tanto amor para ter a sua casa pronta para a época natalícia. O Sr. Jones é o meu herói. “Faço-o pelas crianças,” confidenciou-me ele uma vez, mostrando-se receoso que eu pudesse não entender realmente as suas motivações.
Bom, Sr. Jones, compreendo-o agora. Não é só para as crianças que tanto se esforça todos os anos. Fá-lo porque quer proclamar às pessoas que sofrem, como eu, o espantoso significado do nascimento de Jesus. Fá-lo porque compreende que, mesmo nas noites mais sombrias, a estrela de Belém brilha bem alto, indicando o caminho da esperança, da cura e do compromisso. Fá-lo pelas pessoas como eu, que precisam que lhes lembrem que todos nós podemos empenhar-nos um pouco mais em ser a magia que transforma a dor dos outros em alegria.
Que seja abençoado, Sr. Jones. E que seja abençoada a casa dos Griswold!

Paula L. Silici, 2010

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