Preparando o Natal

O segredo de Shaira

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Sem TítuloUm conto de Rajastão. O Rajastão é o maior estado da Índia. Tem 32 distritos e a sua capital é Jaipur.

Em tempos que já lá vão, quando os deuses e as deusas visitavam as casas das pessoas, uma menina vivia com a sua mãe viúva num bairro de lata junto ao rio. Todos os dias Shaira ia de casa em casa, por becos e vielas, e recolhia roupa suja que a mãe depois lavava. Todos os dias rezava a Lakshmi, a deusa da fortuna, pedindo-lhe bênçãos para que a mãe não tivesse de ser lavadeira a vida toda.

Uma certa manhã, enquanto caminhava para casa demoradamente, pensou que em breve se celebraria Divaali, o Festival das Luzes. Que prenda iria dar à mãe? Acima da sua cabeça, os gritos agudos dos corvos interromperam-lhe o fluxo do pensamento. Do bico do corvo maior pendia um objeto brilhante. Outros corvos esvoaçavam ao seu redor, na tentativa de agarrar o prémio apetecível. Cawwwww!, gritou o corvo, e, nesse instante, o objeto brilhante caiu no chão. Shaira correu tão depressa quanto as suas pernas pequeninas lho permitiram e foi ver o objeto. Mesmo na soleira da porta de sua casa, no sítio onde tinha feito o rangoli [i] de uma flor de lótus junto a um vaso de calêndulas, estava um colar de pérolas de sete voltas!

A tremer, Shaira pegou no colar e sentiu a suavidade das contas redondinhas. Contemplou-o, embevecida. À luz do sol, os matizes das contas brilhantes dispostas em cada volta iam do branco ao amarelo, cor de laranja, vermelho, verde, azul, índigo e lilás – todas as cores do arco-íris! O coração bateu-lhe mais forte: o colar daria um belo presente para oferecer à mãe por ocasião do Divaali. Ainda por cima, a mãe não tinha qualquer jóia. Shaira foi a correr embrulhar o colar num lencinho de mão perfumado e escondeu-o debaixo do colchão.

No dia seguinte começavam os festejos de Divaali. Shaira levantou-se cedo para ajudar a mãe com a roupa. A mãe tinha-lhe prometido comprar foguetes que explodiam numa fonte de cores. Acima de tudo o que importava a Shaira era oferecer à mãe o presente secreto. Quando terminou de recolher a roupa, o sol já ia alto no céu. Enquanto se dirigia à margem do rio onde a mãe a esperava, ouviu tambores de uma rua perto. As pessoas acorriam para saber da causa de tamanho alvoroço. Shaira juntou-se à multidão sem nunca largar a trouxa da roupa. O largo da cidade estava repleto de pessoas. “Ouvi, ouvi todos com muita atenção!”, gritaram os arautos do rei. “Sua Majestade, a Rainha, perdeu o colar de pérolas. O rei dará uma boa recompensa a quem o encontrar.”

Shaira sentiu um calafrio. Será que… Será que era o colar que tinha encontrado? Dirigindo-se à senhora que estava perto dela, perguntou-lhe: “Como é que a rainha perdeu o colar?”

“Ai não sabes?”, respondeu a senhora. “Um corvo roubou-lho enquanto a rainha se banhava nas águas do rio.”

Um corvo? Shaira esmoreceu. O colar que ela encontrara tinha caído do bico de um corvo. A senhora prosseguiu. “É um colar muito especial. As pérolas de que é feito são extremamente raras. Sabias que foram precisos mil mergulhadores para se conseguirem todas as pérolas bem no fundo do oceano?” Shaira agarrou com força a trouxa da roupa. Decidiu ir ter com a mãe, caminhando muito devagar, medindo cada passo cuidadosamente, refletindo sobre a melhor atitude a tomar. O colar que tinha encontrado devia ser o mesmo que a rainha tinha perdido.

A mãe de Shaira, agachada na margem do rio, pegou no monte de roupa que a filha trazia.

“Mãe, já sabes da novidade?” Shaira contou, então, à mãe a história sobre o colar da rainha e sobre a recompensa do rei. Fez uma pausa antes de prosseguir. “E se o corvo tivesse deixado cair o colar em nossa casa?”

A mãe sorriu. “Beti, pára de sonhar. Temos muito que fazer. Vá, põe esta roupa a secar.”

Shaira anuiu mas não se mexeu.

“Despacha-te, Shaira. Não queres ir comprar os foguetes para a festa?”

Shaira acenou com a cabeça e foi para casa. Caminhava devagar, carregando a roupa molhada, enquanto fios de lágrimas lhe corriam pela cara. O que deveria fazer com o colar? Quem encontra, adora; quem perde, chora, repetia-lhe uma voz. Mas uma outra contrapunha: O colar não te pertence. Tens de o devolver. Sabia que Divaali celebrava a vitória do bem sobre o mal. Como seria, pois, possível começar o ano na desonestidade? De certeza que a mãe preferia a pérola da retidão às pérolas de um qualquer colar.         

Shaira chegou a casa, pegou no lencinho que embrulhava o precioso colar e dirigiu‑se ao palácio do rei. Nos portões da entrada, os guardas bloquearam-lhe a passagem.

“Lamento, minha menina, mas não podes entrar no palácio.” Shaira mostrou-lhes o pequeno embrulho. “Sou eu que tenho o colar da rainha.”

Muito espantados, os guardas conduziram prontamente a menina escadaria acima, ao longo dos corredores até à sala do trono, onde se encontravam o rei e a rainha. Shaira fez uma vénia. “Sua Majestade, aqui está o vosso colar. Foi um corvo que o deixou cair à entrada de minha casa.” Abriu o lenço e pegou no colar de pérolas de sete voltas. A rainha aproximou-se para o examinar. “Sim!”, exclamou. “É o meu colar. Ó, linda menina, não só encontraste o meu colar como tiveste a honestidade de vires aqui entregar-mo.” Beijou Shaira nas faces e agradeceu-lhe com os olhos marejados de lágrimas.

A felicidade transbordante da rainha comoveu Shaira. Sentiu-se muito contente por ter devolvido o colar. Que orgulhosa a mãe ficaria! O rei entregou a Shaira uma bolsa com o dinheiro da recompensa. “Aqui tens! Utiliza-o como muito bem entenderes.” Mas Shaira, usando de toda a delicadeza, recusou a oferta. O rei e a rainha ficaram boquiabertos. “O que queres, então, minha menina? Diz-nos o que desejas e dar-to‑emos,” disse o rei.

“Vossas Altezas,” Shaira hesitou. No dia seguinte celebrava-se Lakshmi Fuja. “Quero que a cidade inteira permaneça às escuras amanhã.”

O rei franziu o sobrolho: “Que pedido mais estranho!”. Ao que a rainha contrapôs: “Cumpriremos a nossa promessa.”

E assim, no dia seguinte, os arautos do rei anunciavam a decisão por toda a cidade. Quando a noite caiu, Shaira pegou em todas as lamparinas de barro que ela e a mãe tinham, encheu-as de azeite e acendeu-as. Colocou estas pequeninas deusas cintilantes ao longo das paredes da sua minúscula casa e certificou-se de que todos os cantos ficavam iluminados. Lá fora, a noite sem lua estava serena. Todas as casas da cidade, incluindo o majestoso palácio de mármore do rei, estavam imersas em escuridão. Apenas a casinha de Shaira resplandecia como uma estrela solitária. De súbito, ouviu-se o tilintar dos sinos do templo e alguém bateu à porta.

“Deixe-me entrar, por favor,” instou uma voz amável.

A mãe de Shaira assistia a tudo de olhos esbugalhados. Shaira sorriu. “Não se preocupe, mãe. Temos um convidado especial.” Dirigindo-se ao visitante, disse: “Só te deixarei entrar na condição de nos abençoares.”

“Sim, sim, fá-lo-ei,” retorquiu a doce voz.

Shaira correu a abrir a porta.

Nessa altura, soprou um vento suave. À entrada da porta, a Deusa Lakshmi resplandecia num sari[ii] de seda cor-de-rosa coberto de flores de lótus. Na cabeça tinha uma coroa de ouro cintilante. Sorriu a Shaira.

“A luz das lamparinas atraiu-me a tua casa,” disse. “E a honestidade do teu coração brilha com tanto esplendor que eu te abençoo.”

Shaira ficou pregada ao chão. Era como se a luz de todas as lamparinas da sua casa a iluminasse por dentro.

A deusa pôs-se a admirar o rangoli à entrada da casa. Pegou no vaso de calêndulas e transformou-o num pote de moedas de ouro. “Este pote estará sempre cheio,” disse, entregando-o a Shaira.

As mãos de Shaira tremiam e mal conseguia pegar no pote, de tão pesado que era. Passou-o à mãe: nunca mais ela teria de trabalhar como lavadeira. Essa era a melhor prenda de todas. Shaira e a mãe inclinaram-se diante da deusa e, tocando-lhe os pés em sinal de veneração, disseram: “Obrigada, Deusa Lakshmi! Obrigada por ter tornado este Divaali tão especial!”

A deusa sorriu e desapareceu.

Na noite de Divaali, Shaira lançou os foguetes, que explodiram nas sete cores do arco-íris, tantas quantas as voltas do colar de pérolas da rainha. Tinha a certeza de que, dali em diante, toda a sua vida estaria repleta daquelas cores da alegria.

Shenaaz Nanji; Christopher Corr
Indian Tales: A Barefoot Collection
Cambridge, MA: Barefoot Books, 2007
(Tradução e adaptação)

[i]O rangoli é uma das formas de arte mais populares da Índia, normalmente colocada no chão, perto da entrada da casa, para dar as boas-vindas. Simples materiais como flores, farinha, arroz e giz de cores servem para dar forma a plantas, flores, animais ou motivos geométricos que compõem todo o colorido deste tapete da sorte.

 

[ii] O sari é um traje nacional das mulheres indianas, constituído por uma longa peça de pano que envolve e cobre todo o corpo. São utilizados cerca de 6 metros de tecido.

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