Preparando o Natal

Uma história pouco feliz

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Sem TítuloEsta não é uma história pouco feliz pelo facto de a mãe e a tia Malvina não gostarem muito uma da outra. É verdade que a tia Malvina é um tanto complicada e fez a vida difícil à minha mãe, mas ela já esqueceu isso há muito tempo.

Esta também não é uma história pouco feliz por o meu pai todos os anos, não saber que prendas oferecer. Acontece a muitos homens, e a minha mãe compreende. É sempre ela que compra as prendas para toda a família e chega mesmo a escolher a da tia Malvina. O meu pai fica todo contente.

Não, esta é uma história pouco feliz porque o meu pai, pouco antes do Natal, voltou a ir visitar a tia Malvina, e porque ao mesmo tempo, apareceu o carro para recolher lixo e porque a minha mãe… Mas comecemos do princípio.

Acontece que a tia Malvina é doida pelo meu pai. Quando ele andava na universidade, morou em casa dela, que, já na altura, o estragava com mimos. Por isso, não era de se esperar grande coisa quando ele, certo dia, lhe apresentou a namorada. A tia Malvina ficou terrivelmente ciumenta. Escutava à porta, espreitava pelo buraco da fechadura e proibiu visitas depois das dez da noite. E disse-lhe que tivesse cuidado com aquela mulher! Felizmente o meu pai não se deixou influenciar e casou com a minha mãe. Mas ainda hoje é preferível que ele vá sozinho visitar a tia Malvina.

Passa-se tudo como antigamente. A tia faz os pratos preferidos do meu pai, vai buscar as fotografias antigas e fala com ele sobre os velhos tempos. E nunca se esquece de um mimo à despedida: às vezes presenteia-o com uma garrafa de licor, embora o meu pai não aprecia, mas quase sempre oferece-lhe doces. Tem pena dele, porque a minha mãe o obriga a fazer dieta.

Numa altura qualquer, pelo Outono, a tia Malvina adoeceu. Na visita seguinte, o pai assustou-se ao vê-la tão envelhecida e mirrada. À despedida, ela deu-lhe um pacotinho minúsculo. Estava embrulhado em papel de cor vermelha e tinha um laço dourado à volta.

— Desta vez, isto não é para ti — disse. — É para a tua mulher.

Durante a viagem de regresso, o meu pai abanou o pacotinho junto ao ouvido. Dentro estava um objecto pequeno e duro que lhe fez lembrar que a tia Malvina não trazia, como de costume, o seu broche antigo e valioso.

Na verdade, ele podia ter dado de imediato o pacotinho à minha mãe, mas faltavam poucas semanas para o Natal. Naquele ano, ia voltar a ficar em apuros sem saber o que lhe oferecer. Porque não dar-lhe nessa altura o embrulhinho da tia Malvina?

Por isso, o pai precisava de um esconderijo, o que não era fácil. A mãe conhece cada canto da casa. Só a um quarto da cave é que raramente vai, por estar muito desarrumado.

O pai tem lá a oficina dele e era lá também que se encontrava a cómoda velha e desengonçada onde guardava as ferramentas. Era o melhor esconderijo que conhecia. A cómoda tinha, nomeadamente, uma gaveta secreta. Bem, não era uma verdadeira gaveta secreta. Era um fundo duplo que o meu pai certa vez fizera. Fora preciso, porque uma família de ratos tinha roído um buraco na cómoda e construído um ninho com o pano do óleo.

O meu pai foi portanto à cave e meteu o pacotinho entre os dois fundos. De certeza que a minha mãe não iria encontrá-lo. Satisfeito, voltou em seguida para cima, já o jantar estava na mesa, transmitiu os cumprimentos da tia Malvina e serviu-se. Até aqui, é uma história normal. Agora é que a história vai piorar.

Tinham passado algumas semanas e já o Natal estava presente em todo o lado. Nas portas, havia coroas penduradas, velas eléctricas nos jardins e, nas janelas, feixes de luz. A minha mãe fizera toda a espécie de bolachas e deu algumas ao meu pai, que estava de saída para a visita de Advento a casa da tia Malvina.

Desta vez, eu acompanhava-o, embora habitualmente me esquivasse, como a minha mãe. No ano anterior, a tia tinha-me dado uma nota, e esperava o mesmo este ano.

Depois de termos bebido chá com a tia, de termos provado as bolachas da mãe e olhado para a chama da vela, o meu pai recebeu uma garrafa de licor à despedida, e eu não recebi uma, mas duas notas. Em seguida, a tia deu a cada um de nós dois beijos e ficámos livres para irmos para casa.

Ao dobrarmos a esquina, já perto de casa, uma carrinha cheia até cima barrou-nos a entrada e o meu pai buzinou, zangado. A carrinha pôs-se em andamento e desapareceu. Embora já fosse escuro, eu tinha visto que, por entre outras coisas velhas, também ia a cómoda velha do meu pai. Mas quando lho disse, limitou-se a responder:

— Oh, viste mal.

Infelizmente, eu não tinha visto mal, como mais tarde constatei. A minha mãe estava precisamente em frente da casa a alinhar as cadeiras velhas de jardim, um saco cheio de aparelhos domésticos, um cortador de erva estragado e a pá da neve sem cabo contra a sebe, enquanto resmungava:

— Estes indivíduos desarrumam tudo. Remexem, remexem e só levam o que querem. O resto, deixam ficar.

— A cómoda do pai também lá ia? — perguntei.

— Claro — disse a mãe, dando um pontapé à pá. — Aquela horrível coisa velha tinha de sair cá de casa.

Depois segredou-me ao ouvido.

— Pelo Natal vou dar ao pai uma prateleira nova para as ferramentas. Mas não lhe digas nada!

Enquanto a mãe se dirigia para casa, o pai saiu da garagem.

— O que é que disseste? Que a minha cómoda também foi levada? Quero ver isso! — E desceu à cave.

No instante seguinte estava de volta.

— Anda, Lucas, vem comigo! — gritou aflito. Correu para a garagem e meteu-se no carro. Ainda nem tinha acabado de entrar, e já o meu pai saía em marcha-atrás para a rua. Quase atropelava a minha mãe, que estava a colocar uma mala para os lixeiros levarem. Ainda nos gritou qualquer coisa que não percebemos e virámos a esquina. O meu pai seguia ao longo da rua e espreitava para as ruas laterais, repetindo constantemente:

— Temos de encontrar a carrinha. Temos de reaver a nossa cómoda!

— Deixa lá a cómoda velha — disse eu. — Qualquer dia acabava por se portir toda.

O pai não respondeu. Continuou obstinadamente a percorrer uma rua após a outra. Finalmente, quase à saída da cidade, encontrou a carrinha. Estava tão carregada, que seguia muito devagar para não perder nenhuma da sua carga vacilante. O meu pai quase lhe bateu, quando a carrinha parou de repente. Três homens desceram e dirigiram-se a um monte de lixo. Não repararam que o meu pai também saíra do carro e tentava puxar a cómoda para fora da carrinha. Com a minha ajuda, estava prestes a conseguir, quando um dos três homens o descobriu. Vociferou numa língua estrangeira, depois os três homens saltaram para a carrinha e foram-se embora.

O pai empurrou-me para dentro do carro e seguiu atrás. Começara uma louca perseguição que nos levou para fora da cidade. Tanto os homens com a carrinha como o meu pai faziam imensas curvas.

— Pai, porque é que queres a toda a força reaver a cómoda velha? — perguntei, cheio de medo.

— Eu não quero nada — respondeu.

E não pôde dizer mais, porque a carrinha saíra da estrada e seguia agora por um caminho no bosque. O pai seguiu atrás.

Desta vez, os homens já o esperavam. De pernas abertas em frente dos faróis, pareciam três sombras negras. O pai saiu do carro e dirigiu-se-lhes com as mãos ao alto. Como num filme, pensei. Só lhe faltava acenar com um lenço branco.

— Por favor, nada de lutas — disse-lhes.

Depois, verificou-se que dois dos homens falavam bastante bem o alemão e o meu pai negociou com eles. Disse que queria comprar-lhes a cómoda velha. Desconfiados, recusaram e ofereceram-lhe algumas das outras velharias que tinham. Mas o pai não quis. Deu-lhes primeiro uma, depois duas e por fim três notas gordas. Finalmente concordaram. Descarregaram a cómoda, subiram para a carrinha e desapareceram.

— Porque é que só queres a cómoda velha? — perguntei pela terceira vez, e quase lhe ia revelando que ele ia receber uma prateleira nova pelo Natal.

— Explico-te mais tarde, Lucas — disse o pai. — Agarra mas é aí.

Arrastámos a cómoda para o carro e metemo-la na bagageira. Mas ficava tão de fora, que o pai teve de atar a porta com a corda do reboque. Em seguida, fizemo-nos à estrada. Atrás, a cómoda abanava e a porta da bagageira batia para cima e para baixo.

— Ainda perdemos a cómoda pelo caminho — disse eu.

O pai limitou-se a resmungar, pois tinha encontrado um local onde parar na berma da estrada. Parou e saiu do carro. Tirou com esforço a cómoda da mala e, iluminado pelos faróis, começou a destruí-la com o macaco.

— Pai, o que é isso? O que estás a fazer? — gritei, perplexo.

Mas o meu pai não teve tempo de responder, pois acabava de parar atrás de nós um autocarro cheio. O motorista buzinou com toda a força mas o meu pai não se mexeu. Com um pontapé atirou as gavetas para o lado e partiu as partes laterais da cómoda.

Começaram a sair pessoas do autocarro, que queriam saber o que se estava a passar e porque motivo não andavam. O motorista buzinou novamente e depois pegou no telemóvel.

— Estamos numa paragem — disse eu, puxando o meu pai pela manga. — Temos de sair daqui.

— Já vou – respondeu o pai, continuando a bater na cómoda com o macaco, e a fazer estalar tudo.

Atirou com os restos partidos da cómoda para uns arbustos e vi debruçar-se, pegar numa caixinha vermelha e metê-la no bolso. Fez um sinal com a mão e ia meter-se no carro, mas infelizmente a polícia tinha entretanto chegado. Curiosas, as pessoas desceram do autocarro e rodearam o carro do meu pai.

Um dos polícias afastou-as para o lado e disse:

— Está a ser despejado aqui lixo às escondidas!

— Isto obriga a uma participação e a uma multa — disse o outro policial.

O pai estava perplexo e não abria a boca. Aquilo continuava a ser um enigma para mim. Se soubesse o que o comportamento esquisito do meu pai significava, provavelmente tê-lo-ia defendido, mas não foi necessário, porque o primeiro polícia disse ao segundo:

— Nesta época de Natal vamos fechar os olhos e desistir da participação.

O segundo polícia acenou com a cabeça e respondeu:

— Mas a multa, isso vai ter de ser. Esta falta não fica impune.

O meu pai teve de voltar a meter a cómoda na mala do carro com a minha ajuda. Foi mais fácil do que antes, porque agora era apenas composta por destroços. Depois do autocarro partir, um dos agentes entrou no nosso carro. O segundo seguiu atrás no carro da polícia.

Ainda tivemos de andar bastante até ao depósito do lixo. Estava a fechar naquele momento, e o pai teve de pagar uma taxa extra porque estávamos fora das horas de expediente. Depois teve ainda de pagar uma boa soma para se ver livre da cómoda velha. Em seguida, tivemos de ir os dois ao posto da polícia, onde o meu pai teve de voltar a puxar da carteira e pagar. Levou ainda uma longa descompostura, até que, por fim, o deixaram sair. Cá fora quis saber, de uma vez por todas, porque é que o pai tinha arranjado tudo aquilo.

— Eu explico-te ali no quiosque em frente — disse o pai. — Na verdade, estou sem dinheiro, só tenho uns trocos, mas dá para duas limonadas.

Infelizmente o homem do quiosque era tão falador que fiquei outra vez sem saber o que queria. Entretanto, comecei a achar bastante mal o que o pai se dera ao luxo de fazer. Primeiro, a arrojada perseguição, depois, a atitude de regatear a cómoda velha para acabar por destruí-la. E finalmente a polícia. O mais estranho de tudo aquilo é que o meu pai parecia não estar a dar-lhe qualquer importância.

— Não faças essa cara — disse, ao prosseguirmos caminho. — Agora já não há nada que possa acontecer-nos.

Mas infelizmente aconteceu. O motor começou de repente aos soluços e depois foi a baixo. A gasolina tinha acabado.

— Foi a cómoda velha que nos pregou estas partidas todas — resmunguei, quando seguíamos ao longo da estrada com o bidão vazio. — Diz-me lá porquê isto tudo!

A gasolineira mais próxima encontrava-se bastante longe. O pai tinha tempo de sobra para me explicar tudo. Mas só disse:

— É uma história infeliz, mas agora já não pode piorar.

Qual quê? Depois de ter enchido o bidão, viu-se obrigado a confessar ao homem que o atendeu que não tinha dinheiro. Prometeu a pés juntos voltar logo na manhã seguinte e pagar, mas o homem não foi na conversa. Estivemos a um triz de seremos mandados embora de bidão vazio, quando, por sorte, me lembrei das duas notas que a tia Malvina me tinha dado.

Entretanto, em casa, a mãe estava preocupadíssima. Não fazia ideia porque é que o pai e eu tínhamos estado tão pouco tempo em casa e desaparecido logo de seguida. Estava sentada à janela à espera. As velas já tinham ardido, o chá estava frio e não havia muitas bolachas de sobra.

— O que é que se passa? Onde é que se meteram? — perguntou, preocupada, assim que finalmente aparecemos.

O pai estava tão cansado, que não se lembrou de nenhuma desculpa. Como o Natal estava próximo, resolveu dizer a verdade e contou à mãe a história toda. Depois tirou do bolso do casaco o pacotinho da tia Malvina e entregou-lho. A mãe ficou sem palavras. Numa mão segurava o maravilhoso broche antigo e com a outra limpava os olhos.

Quando se acalmou, disse:

— Amanhã vou a casa da tia Malvina pedir-lhe que venha passar o Natal connosco. Vocês estão de acordo?

O pai abraçou a mãe, enquanto eu “limpava” o resto das bolachas.

Margret Rettich

 Brita Groiß; Gudrun Likar
Weihnachten ganz Wunderbar: ein literarischer Adventskalender
Wien, Ueberreuter, 2001

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