Preparando o Natal

O presente de Natal especial

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Faz todo o bem que puderes, usando todos os meios que puderes,
de todas as formas que puderes…durante o maior tempo que puderes
.

John W. Desley

Através da montra da drogaria onde ambos trabalhávamos como assistentes de gerência, conseguia ver que Lamar aguardava ansiosamente a minha chegada. Tínhamos acordado no mês de novembro anterior que ele trabalharia no dia de Natal e eu no dia de Ano Novo.
O tempo que fazia era típico de Memphis nesta altura do ano. Lamar e eu tínhamos sempre esperanças de ver um Natal branco, mas este estava a desenrolar-se exatamente como os dos últimos vinte anos: frio, enevoado, sem um único floco de neve à vista.
Quando me apressei a entrar no calor da loja, Lamar pareceu aliviado.
— O dia foi difícil? — perguntei.
Gesticulando na direção da caixa central, resmungou:
— Ontem chegámos a ter filas de quinze pessoas. Nunca tinha visto tanta gente a tentar comprar pilhas e películas fotográficas ao mesmo tempo. Suponho que é uma das alegrias de trabalhar no dia de Natal.
— O que queres que faça hoje? — perguntei.
— Acho que o movimento vai acalmar por volta das seis da tarde. A noite a seguir ao Natal é sempre muito parada. Talvez pudesses pôr em ordem toda a secção de brinquedos.
E, dito isto, inclinou-se para pegar num animal de peluche.
Aquele pequeno cão de peluche tinha-se tornado a nossa mascote. Parecia que estávamos sempre a apanhá-lo do chão. Cinco, talvez dez vezes por dia. Nunca tinha sido um brinquedo bonito e agora era-o ainda menos: o pelo longo e felpudo tinha-se tornado emaranhado e sujo, por causa da poeira do chão e da sujidade das mãos das crianças que lhe tinham pegado, enquanto as mães aviavam as receitas. O brinquedo já tinha baixado de preço muitas vezes, sem sucesso. Naquele mundo de bonecos brilhantes e mágicos, um pequeno cão de pelo sujo não era um brinquedo de eleição. No entanto, todos os miúdos de Memphis devem ter apertado aquele cachorrinho pelo menos uma vez naquele Natal.
A tarde passou-se rapidamente entre devoluções, trocas e vendas de decorações de Natal (com 50 por cento de desconto). Contudo, às seis horas, tal como Lamar tinha previsto, o negócio diminuiu e fui trabalhar para a secção dos brinquedos. O primeiro brinquedo que me veio parar à mão foi, evidentemente, aquele cãozinho peludo de orelhas cabisbaixas. Comecei por pô-lo no lixo e retirá-lo do inventário, mas mudei de ideias e coloquei-o de novo na prateleira. Por razões sentimentais, suponho. De repente, uma voz interrompeu as minhas divagações.
— Desculpe, é o gerente?
Virei-me e vi uma mulher jovem e franzina com um rapazinho de cinco anos junto dela.
— Sou assistente da gerência — disse. — Em que posso ajudá-la?
A mulher baixou os olhos por um momento, depois levantou o queixo e disse num tom de voz áspero:
— O meu filho não teve Natal. Tinha esperanças de que agora tivessem alguma coisa com desconto, algo que eu pudesse pagar.
Confesso que encarava com cinismo os ocasionais pedidos de moedas dos sem-abrigo, mas a voz dela continha um tal misto de sinceridade e mágoa por ser obrigada a fazer aquela pergunta que eu disse:
— Estou agora mesmo a remarcar os brinquedos com o desconto. O que procura?
O rosto da mulher iluminou-se, como se tivesse finalmente encontrado alguém disposto a ouvi-la:
— Não tenho muito dinheiro, mas gostaria de comprar ao meu filho algo de especial.
O rapaz ficou feliz ao ouvir as palavras da mãe. Dirigindo-me a ele, pedi:
— Pega no brinquedo que mais gostarias de ter neste Natal, está bem?
O menino olhou para a mãe, que acenou em concordância. Esperei, curioso por ver qual dos brinquedos mais populares daquela quadra ele iria escolher. Talvez um carro de corridas ou uma bola de basquetebol. Porém, em vez disso, dirigiu-se ao cão velho e peludo e apertou-o com força. Fiz de conta que estava a afastar o cabelo da frente dos olhos, enquanto limpava uma lágrima.
— Quanto custa aquele cão? — perguntou a mãe, abrindo o fecho de um pequeno porta-moedas preto.
— Não custa nada — disse eu. — Até me faz um grande favor se o levar.
— Mas eu quero pagar a prenda de Natal do meu filho — insistiu ela.
— É um dólar — disse eu.
Tirou da carteira uma nota amarrotada e estendeu-ma. Depois virou-se para o filho e disse:
— Agora podes levar o cãozinho para casa. É teu.
Uma vez mais, disfarcei a minha comoção, enquanto o rapazinho sorria, extático. A mãe sorriu também e murmurou um silencioso “Obrigada”, enquanto saíam da loja.
Através da janela, vi-os embrenhar-se na noite que começava a cair em Memphis. Ainda não se via um único floco de neve, mas, quando voltei para o corredor dos brinquedos, percebi que tinha acabado de viver um Natal branco.

Harrison Kelly

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