Preparando o Natal

O carrinho vermelho

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natal três 2 m

Para ser honesta, o primeiro mês foi um paraíso. Quando Jeanne, Julia, Michael (respetivamente de seis, quatro e três anos de idade) e eu nos mudámos do Missouri para a minha terra, no Ilinóis, exatamente no dia em que me divorciei, sentia-me feliz por ter encontrado um local onde não haveria violência nem abusos. Mas, passado o primeiro mês, comecei a sentir a falta dos meus amigos e vizinhos. Comecei também a sentir a falta da nossa moderna e bonita casa nos arredores de St. Louis, principalmente depois de nos termos mudado para uma velha casa alugada, única possibilidade para os meus parcos rendimentos de divorciada.

Em St. Louis tínhamos todo o conforto: máquina de lavar roupa, secador de roupa, máquina de lavar loiça, televisão e automóvel. Agora não tínhamos nada disso. Após um mês na nossa nova casa, parecia-me que tínhamos passado da classe média para o pânico da pobreza.

No entanto, embora os quartos da nossa casa alugada não fossem aquecidos, as crianças pareciam nem dar por isso. O chão frio debaixo dos pés fazia-as vestirem-se mais depressa de manhã e irem mais depressa para a cama à noite.

Eu queixava-me do frio quando o vento assobiava por debaixo das janelas e da porta daquela velha casa. Mas as crianças riam-se daqueles sítios «tão engraçados», cheios de correntes de ar, e enrolavam-se nas mantas de retalhos que a tia Bernardine nos tinha trazido quando nos mudámos.

Estava horrorizada por não ter televisão. «O que é que se pode fazer à noite?», perguntava eu. Sentia-me infeliz por as crianças irem perder tantos espetáculos de Natal. Mas os meus três filhos eram mais otimistas e muito mais criativos do que eu. Iam buscar os seus jogos e pediam-me para jogar Monopólio com eles. Aninhávamo-nos todos no sofá cinzento que o senhorio nos tinha emprestado, e líamos histórias e mais histórias que trazíamos da biblioteca. A pedido deles, ouvíamos música, cantávamos canções, fazíamos pipocas, construíamos torres enormes com blocos de plástico e brincávamos às escondidas dentro de casa. As crianças ensinaram-me a divertir-me sem televisão.

Num dia terrivelmente frio de dezembro, precisamente uma semana antes do Natal, depois de uma caminhada de três quilómetros do meu emprego até casa, lembrei-me de que, nesse dia, precisava de lavar a roupa da semana. Estava morta de cansaço, de carregar e anotar as encomendas de presentes de Natal das outras pessoas, e também um pouco amarga por saber que quase não tinha dinheiro para comprar presentes para os meus próprios filhos.

Assim que fui buscar as crianças à ama, empilhei quatro cestos cheio de roupa suja no carrinho vermelho deles, e lá seguimos os quatro para a lavandaria que ficava quatro blocos abaixo.

Lá dentro, tivemos de esperar que vagassem máquinas de lavar e mesas para dobrar a roupa. A tarefa de lavar, secar e dobrar a roupa foi mais demorada do que o habitual.

Jeanne perguntou-me:

— Trouxeste algumas bolachas ou passas para comermos?

— Não. Jantamos mal cheguemos a casa — cortei eu rapidamente.

Michael tinha o nariz esborrachado contra o vidro.

— Mãe, vem ver! Está a nevar! Flocos enormes!

Julie acrescentou:

— A rua está toda molhada. Está a nevar no ar mas não há neve no chão!

A excitação deles só me aborreceu ainda mais. Como se não bastasse o frio, agora tínhamos neve e gelo. Ainda nem tinha  desempacotado as botas de borracha e as luvas deles.

Por fim, a roupa lavada foi colocada nos cestos e estes no pequeno carrinho vermelho. Cá fora estava escuro. Já seriam seis e meia? Não era de admirar que eles tivessem fome! Normalmente, jantávamos às cinco.

As crianças e eu metemo-nos a caminho nessa fria noite de inverno e deslizámos pelo passeio escorregadio. Um cortejo de três crianças, uma mãe toda torta e quatro cestos de roupa num velho carrinho vermelho avançavam lentamente, enquanto o vento gelado nos batia nas caras.

Atravessámos o cruzamento na passadeira. Quando chegámos à curva, as rodas da frente do carrinho derraparam no gelo e viraram-no de lado, espalhando toda a roupa na rua enlameada.

— Oh, não! — gritei. — Agarra os cestos, Jeanne! Julia, segura o carrinho! Volta para o passeio, Michael!

Atirei com as roupas sujas outra vez para dentro dos cestos.

— Detesto isto! — gritei.

Lágrimas de raiva vieram-me aos olhos. Detestava ser pobre, não ter automóvel, nem máquina de lavar roupa, nem secador. Detestava aquele tempo de inverno. Detestava ser a única pessoa responsável pelos meus três filhos pequenos. E, sem dúvida nenhuma, detestava a maldita época de Natal.

Quando chegámos a casa, abri a porta, atirei com a carteira e enfiei-me no quarto para chorar à vontade.

Solucei bem alto para que as crianças ouvissem. De uma forma egoísta, queria que elas percebessem o quanto eu me sentia miserável. A vida não podia ser pior. A roupa continuava suja, estávamos todos cheios de fome e cansados, não tinha feito jantar nem conseguia ver um futuro melhor.

Quando finalmente as lágrimas pararam, sentei-me a olhar para um quadro de Jesus feito em madeira, que estava pendurado na parede ao fundo da minha cama. Tinha este quadro desde criança e levava-o sempre comigo quando mudava de casa. Mostrava Jesus de braços abertos abraçando a terra, obviamente a resolver os problemas do mundo.

Continuava a olhar para o seu rosto, esperando por um milagre. Olhei e esperei e, por fim, disse em voz alta:

— Senhor, por favor, faz alguma coisa para melhorar a minha vida!

Queria desesperadamente que um anjo descesse de uma nuvem e me salvasse.

Mas não apareceu ninguém… exceto Julia, que espreitou à porta do quarto e me disse, na sua vozinha de criança de quatro anos, que já tinha posto a mesa para o jantar.

Ouvi então a voz de Jeanne, de seis anos, que estava na salinha a separar a roupa em dois montes, «muito suja, mais ou menos limpa, muito suja, mais ou menos limpa».

Michael, de três anos de idade, entrou então no meu quarto e  deu-me um desenho da primeira neve que ele tinha acabado de  fazer.

E sabem que mais? Nesse preciso momento eu vi, não um, mas sim três anjos à minha frente: três pequenos querubins sempre otimistas, puxando-me uma vez mais das trevas para o mundo do «amanhã vai ser melhor».

Nesse ano, o Natal foi mágico, pois rodeámo-nos de um amor muito especial, baseado na alegria de fazermos coisas simples todos juntos.

Uma coisa é certa: o meu papel de mãe sozinha nunca mais voltou a ser tão assustador ou deprimente como foi nessa noite em que a roupa lavada caiu do carrinho vermelho. Aqueles três anjos do Natal têm mantido o meu espírito elevado; e mesmo hoje, vinte anos mais tarde, continuam a encher-me o coração com  a presença de Deus.

Patricia Lorenz

Autor: contadores.destorias

Contadores d’Estórias é um blogue criado por um grupo de professores empenhados em incentivar o gosto pela leitura. Esta iniciativa possui apenas uma motivação pedagógica, não havendo, por isso, qualquer interesse financeiro envolvido. estorias.em.portugues@gmail.com

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