Preparando o Natal


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O Senhor Lohmann

Sem TítuloNão sei que idade teria, mas pertencia àquele grupo de pessoas que supomos terem oitenta anos … há já tês décadas.

Muito raramente saía da casa onde morava. De manhã ia ao correio e, uma vez por semana, à mercearia dos Schmidts. Em criança, todos tínhamos medo dele. Nunca sorria. Os cantos da boca estavam puxados para baixo, a testa sempre maldosamente franzida e, quando ralhava, nós fugíamos. Acreditávamos que o Sr. Lohmann devia comer crianças, embora não tivéssemos provas concretas.

Ele próprio não fazia segredo de que detestava crianças, igrejas e estrangeiros.

Assim, ficou tudo menos entusiasmado quando, pelo outono, a família Rausch se mudou para a casa do lado. “Ainda por cima são estrangeiros”, resmungou, quando soube que os novos vizinhos eram Bielorussos. De propósito, nunca os cumprimentava. Eles, pelo contrário, cumprimentavam-no sempre, amável e insistentemente, até que, ao fim de um mês, não lhe restou mais do que responder à saudação. Continuar a ler

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A caixinha de beijos

Há algum tempo atrás, um homem castigou a sua filhinha de três anos por desperdiçar um rolo de papel de presente dourado.
O dinheiro era pouco naqueles dias, razão pela qual o homem ficou furioso ao ver a menina a embrulhar uma caixinha com aquele papel dourado e a colocá-la debaixo da árvore de Natal.

Apesar de tudo, na manhã seguinte, a menina levou o presente ao seu pai e disse: “Isto é para ti, Papá!”

Ele sentiu-se envergonhado da sua reacção furiosa, Continuar a ler


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Bolo-Rei – Mª Rosa Colaço

Sem TítuloTodos os anos, quando os velhos Reis Magos acabam de atravessar a pequena estrada de areia que se esboça entre caminhos de musgo e lagos feitos de bocados de espelho partido; quando a estrela de prata que se suspende entre os dois exemplares de “A Paleta e o Mundo” de Mário Dionísio se recolhe para regressar à velha caixa de papelão, com trinta anos de viagens, cheia de bocados de jornal amachucados que ainda guardam notícias de dias que já foram e onde se embrulham os cordeirinhos, os pastores, as oferendas várias que o Menino Jesus recebeu, apesar de já lhe faltar a mãozinha direita que alguém partiu em excesso de limpeza; todos os anos, dizia, recordo a história que o Fernando Midões me contou, certa tarde em que misturámos poemas com lágrimas.

De calças à golfe, lacinho à Baptista Bastos, fato de ver a Deus e celebrar o Dia de Reis, Fernando foi com a mãe jantar a casa das senhoras, gente de talher de prata, criadas de avental branco e crista engomada, cheias de silêncios e reverências. Continuar a ler


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Um gato chamado «Natal» – Rand Souden

Alan abriu a porta das traseiras na manhã de Natal e encontrou o pátio coberto com um belo manto de neve branca e cintilante. Mas não lhe encontrou qualquer beleza.

Alan sentia-se infeliz, como acontecia muitas vezes, porque não recebera o que queria no Natal. Em vez da arma BB que pedira, Alan recebera uma bicicleta nova. Era uma bicicleta vermelha, reluzente, com rodas cromadas e borlas azuis e brancas, presas no guiador. A maioria das crianças teria ficado contente se a encontrasse ao lado da árvore na manhã de Natal, mas Alan não.

«És muito novo para teres uma arma», explicara a mãe, tentando consolá-lo. Mas não resultara. Ficara amuado toda a manhã. Quando Alan estava triste, queria que todos também estivessem tristes.

Por fim, depois de abertos todos os presentes, o pai pedira a Alan que levasse as caixas e o papel de embrulho para o lixo. Quando Alan atirou os papéis para dentro do barril, um gatinho trémulo espreitou por detrás da vedação e saudou-o com Continuar a ler


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Hoje é Natal – José Vaz

O avô Fernando chegou de longe com uma mala muito pesada. Ajudei-o a levá-la para o meu quarto e não o larguei mais, enquanto não a abriu. O que traria ele dentro daquela mala tão grande? Prendas de Natal? Surpresas? Brinquedos? Livros? – perguntava a mim próprio. Mortinho de curiosidade, andei à sua volta como uma mosca, a zumbir perguntas.
— Ó avô, o que é que trazes?
— Tem calma, tem paciência, que logo te mostro! – aconselhou, ainda com a voz ofegante por ter carregado comigo aquela mala.
— Anda lá, diz-me só a mim, que eu não digo a mais ninguém!
— As prendas e as surpresas só se mostram logo, depois da ceia. Não sejas chato!
— Diz-me, que eu prometo guardar segredo! – insisti.
Como tinha de entregar à minha mãe uns produtos para a ceia, que tinha trazido da sua terra, começou a abrir a mala devagarinho e eu fiquei à espera que de lá de dentro saísse qualquer coisa de mágico: um avião que voasse – vrrruuum, vrrruuummm – ou uma coisa assim… capaz de fazer pasmar os meus amigos. Continuar a ler