Preparando o Natal

Uma viagem no inverno

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Era uma vez um rapaz chamado Homer. Vivia numa pequena casa branca com os seus pais, vários gatos e um cão chamado Sófocles. Homer e Sófocles tinham praticamente a mesma altura, o mesmo peso e até a mesma cor de cabelo. De noite, dormiam no quarto de Homer e de dia brincavam juntos no jardim atrás da casa.

Numa manhã fria de inverno, a mãe de Homer depositou algumas moedas de prata na mão dele e disse-lhe para ir à cidade cortar o cabelo.

— E leva contigo o Sófocles, também — acrescentou ela  — para o caso de te perderes.

 E assim Homer e Sófocles esgueiraram-se da segurança do jardim das traseiras em direção ao mundo mais além. Seguiram o trilho traçado por cima de raízes e pedras, para lá da velha igreja de madeira, do posto dos correios, da biblioteca, até uma pequena e íngreme colina em direção à cidade.

O céu apresentava-se frio e cinzento, e o ar estava sereno. As pessoas apressavam-se para dentro e fora das lojas como se algo de emocionante estivesse para acontecer.

Quando Homer e Sófocles chegaram à barbearia, o velho de cabelos brancos deu uma olhada na sua direção.

— O teu cão também vai cortar o cabelo? — perguntou ele. — De outro modo, será melhor deixá-lo lá fora.

Relutantemente Homer levou Sófocles até à porta e deixou-o ali fora.

— Espera aqui — disse. — Estarei cá fora num instante.

Homer sentou-se numa grande cadeira. O barbeiro colocou-lhe uma capa em volta do pescoço, impulsionou uma barra de metal brilhante, e Homer começou a elevar-se lentamente. Com uma tesoura e uma máquina de barbear, o barbeiro começou a cortar e aparar em torno da cabeça de Homer.

Do lugar onde estava sentado, Homer conseguia ver Sófocles à espera no passeio. Via flocos de neve flutuando desde o céu calmo e cinzento. A princípio eram escassos, mas o ar tornou-se cada vez mais leve e claro, e na altura em que voltou para a rua, tudo tinha mudado. A neve cobria o solo e formava uma camada branca em cima da cabeça de Sófocles. Quando se arrastaram de volta a casa, deixaram um trilho de pegadas na neve, mas também estas ficaram rapidamente soterradas.

A neve continuou a cair durante a tarde, num lento e continuo véu branco. Aninhava‑se em silêncio sobre os arbustos e ramos das árvores, transformando o solo despido do jardim das traseiras num branco macio e ininterrupto.

Homer parou com Sófocles debaixo do enorme ulmeiro, olhando para o céu de onde caíam milhares de flocos — pairando, subindo, mergulhando através do ar fino lá do alto. Curvou-se, apanhou uma mão cheia de neve e observou-a, enquanto caía das suas mãos em concha, na forma de uma nuvem prateada.

Subiu para a bicicleta e tentou guiar por cima da relva, mas a neve era demasiado densa. Sentou-se no baloiço e baloiçou-se algumas vezes. Tentou subir ao pequeno ácer, mas os ramos estavam muito escorregadios. Foi até ao buraco na sebe e olhou para fora: os carros moviam-se ao longo da estrada com um rugido lento e constante.

Nunca antes tinha visto nevar tão abundantemente.

Homer queria ficar lá fora e ver a neve a cair durante toda a noite, mas sabia que a mãe nunca iria deixá-lo. Mesmo nessa altura, ouviu-a chamá-lo.

— Homer, Homer! Horas de jantar!

Ele disparou a correr pela relva, tropeçou num ramo partido, rebolou na neve, saltou do muro de pedra, e entrou em casa pela porta das traseiras. Só então se apercebeu que Sófocles já não continuava com ele. Abriu a porta e olhou para fora, mas Sófocles desaparecera.

— Onde está o Sófocles? — perguntou Homer à mãe, mas esta não sabia.

— Não te preocupes. Ele volta — disse ela. — Provavelmente foi dar um passeio.

Mas Homer não estava convencido. Depois do jantar saiu lá para fora e chamou-o.

— Sófocles, Sófocles! — gritou, mas a única resposta foi o uivar do vento.

Procurou pegadas na neve, mas tudo estava já coberto. Olhou para a rua, mas estava deserta. À distância, conseguia ouvir o ruído de um limpa-neves e o guinchar de um carro atolado. Homer refez os seus passos ainda marcados na relva e foi para dentro.

Mais tarde, nessa noite, depois de Homer ter ido para a cama, os pais deram um pequeno jantar de festa. Enquanto estava deitado na cama, conseguia ouvir os sons de copos tilintando, a mãe a falar, e o estrépito das gargalhadas da Srª Merson — tudo subindo as escadas até ao seu quarto. Homer conseguia até sentir o cheiro a fumo do charuto do Dr. Pulsavar. Lá fora, o vento continuava a soprar e a neve batia contra a janela como se fosse um homem com um longo e retorcido cajado.

Embora estivesse cansado, Homer não conseguia dormir. De vez em quando levantava-se e ia espreitar pela janela. A neve caía em forma de sino através do brilho dos candeeiros da rua, dançando e elevando-se com súbitas rajadas de vento. Os degraus dianteiros da casa estavam brancos e completamente lisos, e o alpendre parecia uma enorme cama.

Voltou para o seu quarto, deitou-se e fechou os olhos: conseguia ver Sófocles sentado tranquilamente com ele na neve, e depois o jardim, — apenas um momento mais tarde — uma macieza autêntica e vazia. Onde é que ele teria ido?

Homer enfiou um par de meias de lã grossas e esgueirou-se pelas escadas das traseiras até à cozinha. Encontrou as suas botas de pé, no meio de uma pequena poça, e calçou-as. Vestiu o casaco, pôs o chapéu, calçou as luvas, puxou as pernas das calças do pijama por cima das botas, e saiu para um mundo de uma brancura e macieza inimagináveis. A neve feria-lhe a cara, e as suas palavras eram varridas pelo vento.

— Sófocles, Sófocles! — chamava ele.

O jardim estava soterrado, e o arbusto de forsítia tinha-se transformado num gigantesco monte de neve — como se fosse um iglu.

Lutou através da neve, passou o ulmeiro, saiu pelo buraco na cerca, até onde o pavimento deveria estar. Com grande dificuldade, trepou a barreira de neve e ficou de pé na berma de uma estrada completamente deserta.

— Sófocles, Sófocles! — chamou de novo.

Pôs as mãos em concha sobre os ouvidos e escutou.

Então, na distância, Homer ouviu o que parecia ser o ladrar de um cão. Começou a caminhar em direção à cidade — de onde tinha vindo o latido. As casas tinham as luzes apagadas. As ruas estavam desertas, e o vento e a neve fustigavam-lhe a face. Mas ali mesmo, no vento, ele ouviu aquele som uma e outra vez mais. Continuou a caminhar penosamente — passando pelo brilho de néon da loja dos brinquedos, para lá da velha igreja de madeira e da biblioteca, atravessando a linha férrea, até a um local onde ele nunca tinha estado.

A neve rodopiava à sua volta e caía tão rápida e espessa que ele mal conseguia ver. Pensou que tinha ouvido de novo o ladrar, mas de onde é que ele viria? Parou num cruzamento, à luz amarela de um candeeiro da rua, e depois olhou em volta, mas nada lhe parecia familiar.

Um homem de chapéu alto de pelo e fumando um grande charuto caminhou em direção a Homer, de cabeça inclinada contra o vento e a neve.

— Desculpe, desculpe — disse Homer. — Sabe onde fica a East Street?

O homem olhou para cima e sorriu.

— Um pouco tarde para estar cá fora à neve, não achas? — disse ele, e passou-lhe mesmo ao lado, rua abaixo.

Homer continuou o seu caminho. Encontrou uma mulher com um lenço enrolado à volta da cabeça, transportando duas enormes carcaças de pão.

— Desculpe, por acaso viu o meu cão? — perguntou Homer mas, em vez de responder, a mulher baixou os olhos para ele e sorriu.

Atrás dele, ouviu-se o tilintar de campainhas, enquanto de uma outra rua surgia um grupo de cavalos a puxar um trenó, conduzidos por um homem de barba com um chapéu de pelo, brandindo um chicote.

— Iô, Iô — gritava ele, estalando o chicote contra o costado dos cavalos.

Homer pulou do caminho e aterrou num monte de neve. Enquanto cavava tentando sair dali, o trenó fazia grande estardalhaço ao passar por detrás de uma nuvem de neve.

De repente, Homer desejou estar de volta à sua cama, a ouvir os sons da festa que decorria no andar de baixo, com o vento e a neve tamborilando na sua janela. Começou a correr, mas as botas eram pesadas. Quanto mais se esforçava, mais devagar andava.

Enquanto corria, ouviu um som familiar atrás dele. Olhou para trás, para a luz giratória e amarela de um gigantesco limpa-neves, que seguia mesmo atrás dele, fazendo ouvir a sua buzina. “Barurah! Barurah!” Os faróis da frente brilhavam através da neve rodopiante como dois olhos zangados e incandescentes. Homer tentou correr cada vez mais depressa, mas as botas puxavam-lhe pelas pernas como uns pesos.

Sentia-se como se estivesse a correr no fundo do mar.

“Barurah! Barurah!” troava a buzina.

O som estava cada vez mais próximo. Não havia sítio para onde ele pudesse escapar. Tentou subir a um monte de neve, mas era demasiado alto. Começou de novo a correr, mas tropeçou e magoou o queixo num pedaço de gelo. Agora a máquina estava mesmo atrás dele, grande como uma casa, o seu arado prateado abrindo a neve em duas ondas enormes.

— Sófocles, Sófocles! — gritou Homer.

E então ouviu o som de um ladrar, e Sófocles saltou por cima do muro de neve ao lado dele.

— Sobe! — disse Sófocles.

Homer subiu para as costas do cão, pôs os braços em torno do seu pescoço, e Sófocles pulou. Tinham levantado voo — subindo acima da rua, das casas, do limpa-neves — voando através do vento e da neve que cegava. Subiram cada vez mais alto, em direção às nuvens, para um sítio onde não estava a nevar e onde um milhão de estrelas resplandecia no seu brilho a partir de um céu azul-noite. Uma lua esplendorosa pendia por cima deles como uma moeda de prata.

— Agarra-te bem! — disse Sófocles.

O pelo estava todo puxado para trás e as orelhas batiam no vento à medida que eles começaram a descer, mergulhando através da noite, passando com ímpeto através das nuvens em direção ao local onde a cidade permanecia, por baixo deles, como num sonho.

A neve tinha parado, e tudo era branco e calmo. Homer conseguia ver a loja dos brinquedos, o pináculo branco da igreja, a biblioteca, e os ramos do ulmeiro no seu quintal das traseiras.

Depois viu a sua casa. Da chaminé saía fumo, e todas as luzes estavam apagadas, exceto a do seu quarto. Sófocles precipitou-se por cima da cerca e voou para o jardim, aterrando suavemente na neve perto da porta de trás. Homer deixou-se escorregar das suas costas, abriu a porta, seguiu Sófocles para dentro, e depois subiu as escadas até ao seu quarto.

— Bom dia! — foi o que ouviu a seguir.

Levantou os olhos e viu a sua mãe entrar no quarto.

— Adormeceste tarde. A festa fez-te estar acordado?

 O seu quarto estava claro, e o sol brilhava no céu límpido e azul através das portadas geladas das janelas.

— Bom dia — disse Homer, sentando-se devagarinho, esfregando os olhos para espantar o sono. Olhou pela janela para o quintal das traseiras. A neve tinha parado e tudo estava coberto por um manto suave e luminoso.

— Onde está o Sófocles? — perguntou.

— Está mesmo aqui — respondeu a mãe, apontando para o chão onde Sófocles estava deitado a dormir. — Um dos convidados deve tê-lo deixado lá fora ontem à noite. Está exausto. Deve ter sido apanhado pela tempestade.

Homer sentou-se em silêncio durante um momento, e depois olhou de novo com atenção pela janela. Lembrou-se da lua e das estrelas enquanto voava para cima e para baixo através das nuvens e em direção à escuridão límpida e fria, às costas de Sófocles.

— Oh! — disse ele por fim, de volta ao quarto e a sorrir.

E depois saltou para fora da cama, vestiu-se e, com Sófocles mesmo atrás dele, apressou‑se a descer as escadas. Um momento mais tarde, corriam os dois lá para fora, saindo pela porta de trás da casa, para a neve suave e lisa do jardim das traseiras.

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David Updike
A winter journey
London, André Deutsch, 1985
(Tradução e adaptação)

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