Preparando o Natal

O Senhor Lohmann

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Sem TítuloNão sei que idade teria, mas pertencia àquele grupo de pessoas que supomos terem oitenta anos … há já tês décadas.

Muito raramente saía da casa onde morava. De manhã ia ao correio e, uma vez por semana, à mercearia dos Schmidts. Em criança, todos tínhamos medo dele. Nunca sorria. Os cantos da boca estavam puxados para baixo, a testa sempre maldosamente franzida e, quando ralhava, nós fugíamos. Acreditávamos que o Sr. Lohmann devia comer crianças, embora não tivéssemos provas concretas.

Ele próprio não fazia segredo de que detestava crianças, igrejas e estrangeiros.

Assim, ficou tudo menos entusiasmado quando, pelo outono, a família Rausch se mudou para a casa do lado. “Ainda por cima são estrangeiros”, resmungou, quando soube que os novos vizinhos eram Bielorussos. De propósito, nunca os cumprimentava. Eles, pelo contrário, cumprimentavam-no sempre, amável e insistentemente, até que, ao fim de um mês, não lhe restou mais do que responder à saudação.

— Porque é que tens um olhar tão mau? — perguntou-lhe certo dia de chofre Alexandre, de nove anos. — Estás zangado ou estás triste?

Aquela pergunta irritou imenso o Senhor Lohmann. Os seus sentimentos não eram da conta de ninguém, e muito menos daquele miúdo estrangeiro! Não respondeu, limitando-se a entrar em casa, e o seu olhar caiu no espelho. Onde estava escrito que se tinha de andar sempre com um sorriso estampado na cara? Ele, Kurt Lohmann, podia muito bem olhar como quisesse e ninguém tinha nada com isso. Aquele rapazinho era um atrevido, um grande atrevido!

Mas, na manhã seguinte, Alexandre teve a ousadia de tocar-lhe à porta. Perguntou se o Sr. Lohmann não teria uns patins de gelo já velhos que não lhe servissem. “Não, não tinha”. E mesmo que tivesse, não os daria ao estrangeiro. O Sr. Lohmann pô-lo fora da porta de forma desagradável mas, dois dias mais tarde, Alexandre apareceu novamente, desta vez com uma panela de borscht* feita pela mãe.

O Sr. Lohmann sabia muito bem que tudo aquilo tinha uma intenção escondida e não queria aceitar a oferta. Mas o rapaz foi persistente. Por isso, acabou por aceitar a panela. Fechou a porta mas, antes de despejar o caldo vermelho na sanita, provou uma colher e admirou-se por a sopa estar comestível. No dia seguinte zangou-se por ter aceite a sopa. Agora estava com um problema: como é que ia devolver a panela? Decidiu meter cinco euros lá dentro, pois devia ser disso que aqueles Russos estavam à espera. Nunca aceitaria esmolas de ninguém! Também não necessitava delas! Um dia mais tarde, tinha os cinco euros devolvidos na caixa do correio. O que é que aquela gente queria? Cinco euros era pouco dinheiro?

Por altura do Advento, as coisas foram piorando. Primeiro encontrou, no dia de São Nicolau, um saco de bolachinhas pendurado na maçaneta da porta; depois, convidaram-no para o lanche. Naturalmente não foi. Por fim, limparam-lhe a neve da porta e, quando viram que sofria de uma lombalgia, racharam-lhe a lenha.

Mas o Sr. Lohmann não queria de maneira alguma ficar em dívida. Por isso, quis dar-lhes cinquenta euros, que os vizinhos declinaram, agradecidos. Disseram que se tratava apenas de uma “ajuda entre vizinhos”.

Uma semana antes do Natal, a Sr.ª Rausch veio convidá-lo para a Consoada. Claro que não iria, mas foi apanhado tão de surpresa – nunca fora convidado para nenhuma – que a primeira coisa que fez foi agradecer. Continuava a perguntar-se o que andariam aquelas pessoas a tramar. Devia avisar a polícia? Mas abandonou a ideia, pois não queria passar por ridículo.

O dia vinte e quatro de dezembro estava cada vez mais próximo e ele ainda não tinha conseguido dizer que não iria. Quando foi às compras, viu Alexandre parado na beira do lago gelado a ver os amigos a patinar. Quando descobriu o Sr. Lohmann, correu para ele e abraçou-o, rindo-se. Aquele assustou-se. Desde criança que ninguém o abraçava. As lágrimas saltaram-lhe dos olhos. Mas ficou zangado com ele próprio: o seu pai tê-lo-ia desdenhado por aquele arrebatamento!

— Sr. Lohmann, estou tão entusiasmado com a noite de Natal. Também vens à igreja connosco? — perguntou Alexandre.

E ele não teve coragem de dizer ao rapazinho que não iria. Nem à igreja, nem a casa deles. Não tinha família nem precisava de nenhuma. Toda a sua vida se tornara um caos desde que tinha novos vizinhos! Dava por si a ser levado por todo o tipo de sentimentalismos. O pai criticá-‑lo-ia, sem dúvida alguma. Tinha de cortar o contacto com eles antes que fosse demasiado tarde.

Depois aconteceu tudo ao contrário.

Não soube porquê, mas tinha comprado um par de patins de gelo para uma criança de nove anos e queria presenciar a sua alegria ao recebê-los. Por isso – e só por essa razão – caminhava às seis da tarde pelo meio da neve em direção à casa da família Rausch.

A Sr.ª Rausch cumprimentou-o como a uma pessoa de família, Alexandre saltou-lhe ao pescoço, e o Sr. Rausch deu-lhe um aperto de mão e ofereceu-lhe a única poltrona. Ele próprio não sabia o que dizer. Durante um instante quis praguejar enquanto as lágrimas lhe saltavam dos olhos. Mas alguém lhe tirara o casaco e já se encontrava sentado naquela sala natalícia que lhe parecia um pouco pobre e que, de certa maneira, lhe lembrava a história do presépio.

A mobília não era de bom gosto, faltavam algumas coisas. Contudo, sentia-se confortável e bem quente… A árvore de Natal estava decorada, a mesa posta com amor e a comida cheirava maravilhosamente. Parecia-lhe que a sua própria mãe ainda vivia. Depois do jantar, entoaram canções de Natal e em seguida foram distribuídos os presentes.

“Que só tinha a prenda para o Alexandre”, disse, envergonhado, quando a Sr.ª Rausch lhe ofereceu um cachecol tricotado por ela.

Agradeceu, comovido, aquela noite maravilhosa. E a alegria de Alexandre quando viu os patins refletia-se na própria face do Sr. Lohmann ao regressar a casa.

Só à igreja é que não quis ir; naquele ano, pelo menos, ainda não.

Konni Mente

*borscht – sopa de beterraba típica da Rússia e de alguns países da antiga União Soviética.

Ursula Richter; Barbara Mürmann (org.)
Weihnachtsgeschichten am Kamin.23
Reinbek bei Hamburg: Rowohlt Taschenbuch Verlag, 2008
(Traduçao e adaptação)

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