Preparando o Natal

Uma festa no Ramadão

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Sem TítuloLeena rodopiava, em frente à mesa da cozinha, sem fôlego e toda excitada, enquanto a mãe tirava um convite para fora do grande envelope. “Mãe, a Júlia vai ter um pónei na festa, e nós vamos poder montá-lo!” Flocos de confettis esvoaçaram para fora do envelope até à mesa. “Nunca na vida montei um pónei.”
Leena parou de rodopiar quando viu a expressão da mãe alterar-se. “O que se passa, mãe?” perguntou.
“Leena,” disse a Srª Ahmad suavemente, “a festa da Júlia é na próxima sexta-feira, durante as férias da Páscoa. Este ano, calha ser a primeira sexta-feira do Ramadão.”
“Ramadão?” Leena olhou a mãe nos olhos. “Eu vou fazer jejum nesse dia,” disse ela. “Mas não posso perder a festa!”
A mãe ficou calada por um momento. Depois disse “Leena, eu sei que a festa significa muito para ti. Queres fazer o jejum num outro dia? Não há qualquer problema nisso. Tu ainda és muito jovem para jejuar todos os dias.”
“Mas a Tia Sana chega na sexta-feira. Vamos todos ter um jantar iftar depois de quebrar o jejum. Não quero deixar de cumprir o jejum nesse dia.”
Leena aproximou-se da mãe. “A festa é durante a tarde. Posso ir só até lá, sem comer ou beber seja o que for? Estarei em casa antes da hora do iftar.”
A mãe hesitou, depois assentiu.
“Boa! Obrigada, mãe!”
Leena abraçou a mãe e recomeçou a rodopiar.

O dia da festa chegou finalmente. Logo à entrada da casa de Júlia, Leena e a mãe apresentaram-se à mãe dela, a Srª Bernard. A mãe de Leena explicou que, como Leena estava a jejuar, não comeria com as outras meninas.
“Oh, mas não vamos servir propriamente uma refeição,” disse a Srª. Bernard. “Vamos ter só um bolo e ponche.”
“Ela não pode comer ou beber seja o que for durante o período de jejum,” disse a mãe de Leena, “nem sequer água.”
“Nem mesmo água?” perguntou a Srª. Bernard. A voz pareceu muito alta a Leena, que estava envergonhada, pensando que as suas amigas poderiam ouvir.
Júlia e alguns dos seus convidados da festa vieram ver quem tinha chegado. “É a Leena!” gritaram. Júlia, Amy, e Cindy correram e deram um abraço a Leena. “Vem ver o pónei!”
Agradecida, Leena deu à mãe um abracinho rápido e dirigiu-se para o corredor com as suas amigas. Serpentinas e balões decoravam a cozinha. Em cima da mesa, rodeado por pratos e taças com póneis, estava um grande bolo com cobertura de chocolate. Leena viu o pónei pela janela da cozinha. Ela e as amigas correram porta fora para se juntar aos outros, que já estavam à espera que fosse a sua vez de montar.
Quando chegou a vez de Leena, ela sentou-se na sela e imaginou que era uma princesa. Tocou suavemente o pescoço do pónei, percorrendo com a mão o seu pelo brilhante e suave.
Após montar o pónei, as meninas jogaram à apanhada e riram e conversaram umas com as outras ao calor do sol. Andar às corridas fez-lhes sede, e as colegas de Leena decidiram beber limonada. Então Leena lembrou-se que estava em jejum. E não se importou de não beber limonada. Estava a divertir-se imenso na festa. Era fácil estar numa festa e jejuar ao mesmo tempo, a mãe tinha-se preocupado sem motivo!

Enquanto as amigas bebiam limonada, Leena decidiu ir andar de baloiço. Deu lanço com as pernas e voou bem alto pelo ar. Fechou os olhos e imaginou que voava enquanto o vento a trespassava, levantando as pontas do seu hijab .
Quando o baloiço começou a abrandar, Leena apercebeu-se que tinha sede. Uma limonada fresca começou a parecer-lhe o ideal… E pensou como uma tarte e uma limonada doce tinham aquele sabor refrescante…, e como ela gostava de deixar que os cubos de gelo lhe derretessem na boca. Decidiu pois pedir limonada à mãe na altura do iftar.
Depois de brincar à apanhada e de andar tão alto no baloiço, Leena estava também a começar a sentir-se cansada. Todas as amigas estavam agora a entrar em casa. Leena saiu do baloiço com agrado e juntou-se-lhes. O ar fresco dentro de casa sabia bem.
A Srª. Bernard chamou-as para a cozinha: iam comer o bolo.
Amy ficou ao lado de Leena. “Vou ficar contigo. De qualquer modo, também não tenho fome.”
Leena sorriu para a amiga. “Obrigada, Amy, mas eu estou bem. Vai comer, e depois sentamo-nos juntas. Não percas o bolo de chocolate.”
Amy fez uma pausa. “Tens a certeza?” perguntou.
“Sim, tenho a certeza,” disse Leena. Mas Leena não estava assim tão segura. “ Vemo-nos daqui a um bocadinho.”
Enquanto as outras meninas comiam, Leena foi até outro compartimento. Sentou-se na beira de um sofá. O seu estômago resmungava, e sentia um enorme vazio. A cabeça começava a doer-lhe. Sentia-se cansada. Porque é que Deus tinha que complicar tanto? Perguntou-se ela. E porque é que andei a correr tanto debaixo deste sol tão quente?

Sentia a parte do fundo da garganta mesmo seca. Leena daria tudo por um simples gole de água. Estar na festa já não tinha piada. Ela só queria ir para casa: será que as cinco horas nunca mais chegariam?
Leena pousou a cabeça no braço da poltrona. Tirou os sapatos, puxou as pernas para cima, e fechou os olhos. Em breve estava a dormir. E mal se deu conta quando a mãe chegou, a ajudou a ir para o carro, e a levou para casa. Quando abriu os olhos, estava já no seu sofá, na sala da família, em sua casa. Ouvia a voz da Tia Sana na cozinha e as gargalhadas da mãe. A luz da cozinha espalhava-se até à sala. E cheirou o aroma do pão a cozer e do jantar a ser cozinhado no fogão.
O pai de Leena sentou-se ao lado dela enquanto ela se erguia no sofá e pestanejava para espantar o sono dos olhos. “Como é que está a minha menina do jejum?” perguntou, enquanto a abraçava.
Ela sentiu-se segura naquele abraço caloroso. “Estou bem, Pai. Sinto-me muito melhor depois de ter dormido.” A cabeça de Leena já não doía, e já não estava tão cansada.
“Os primeiros dias do Ramadão são geralmente os mais duros, enquanto o nosso corpo se adapta ao novo horário,” disse ele. “Ouvi dizer que tiveste um dia difícil. Tenho orgulho em ti por te teres aguentado. Por vezes não é fácil. Mas Deus sabe quando estamos a tentar fazer-Lhe a vontade.”
“Já está na hora do iftar?” perguntou Leena.
“Quase. Queres ajudar-me a abrir as tâmaras?”
“Claro.”
Leena sentiu-se ainda melhor enquanto se dirigia à cozinha com o pai. A mãe estava a mexer a comida nas panelas, e a Tia Sana estava a cortar fruta. Ambas abraçaram Leena e disseram-lhe como tinham orgulho nela. E os abraços fizeram Leena sentir-se quentinha e confortável.

Sem TítuloA família partilhou histórias enquanto preparavam o jantar na cozinha. A irmã mais nova de Leena, Amira, comeu cereais secos na sua cadeira alta de bebé. Leena ajudou o pai a colocar tâmaras numa travessa e água nos copos. Os seus percalços na festa pareciam já ter acontecido há muito tempo…
Finalmente, chegou a hora de quebrar o jejum. Leena disse para ela própria a tradicional oração em árabe, enquanto pegava numa tâmara. Deus, jejuei em Tua honra, e quebro o meu jejum com boa comida por Ti providenciada. Em Teu nome … A doçura da tâmara encheu-lhe a boca. Seguiu-se a água refrescante, fria, límpida.
Depois, a família distribuiu umas folhas pela sala e rezaram em conjunto a oração Maghrib tal como faziam todas as noites depois do pôr-do-sol. Depois da oração, era hora de jantar. Leena estava agradecida por tudo o que comia. Os queques derretiam-se-lhe na boca, a carne estava deliciosa, até mesmo os brócolos sabiam bem.
Depois de acabar o jantar, Leena disse “Por favor passa-me a baklava, Mãe. E posso beber também limonada?”
“Tenho uma surpresa para ti, Leena,” disse a mãe, tirando uma taça embalada do armário. “Ainda há uma taça do teu pudim de chocolate favorito. Guardei-o para ti. Não preferes comê-lo?”
“Claro que sim!” disse Leena. “Obrigada, Mãe.”
“Pudim de choca!” gritou Amira enquanto corria para a mesa.
“Querida, hoje este é para a Leena,” disse a Srª. Ahmad meigamente à criança. “Podes comer uma bolacha.”
“Amira, eu fiz jejum hoje,” disse Leena à irmã. “Não comi durante todo o dia.”
“Também eu. Estive a fazer jejum. Também não comi pudim durante todo o dia,” disse Amira, olhando para a irmã.
Hoje eu não tenho que partilhar, pensou Leena. Jejuei todo o dia e agora devia poder comer tudo o que quisesse. Leena pôs uma colherada de pudim na boca e saboreou o espesso chocolate. Olhou para a cara da irmã. Lembrou-se como se tinha sentido na festa quando na verdade lhe apetecia comer a cobertura de chocolate do bolo da Júlia e não podia.
Leena pegou numa outra colherada de pudim. Depois, fez deslizar a taça para a frente da irmã. “Aqui tens, Amira. Podes comer o resto.”
A mãe sorriu, e a Tia Sana esticou-se e deu umas pancadinhas no ombro de Leena.

Quando a família começou a comer a sobremesa, tocou a campainha da porta. Era Júlia com a sua família, Amy e a mãe. Traziam bolo de chocolate da festa.
“Olá, Srª Ahmad,” disse a Srª Bernard. “Pensámos que talvez a Leena gostasse de comer um pouquinho de bolo. Guardámos algum para ela.”
“Que simpáticos! Por favor juntem-se a nós para jantar,” disse a mãe de Leena, convidando calorosamente as visitas a sentarem-se à mesa.
Leena correu a cumprimentá-los e apresentou toda a gente. A mãe trouxe pratos para as visitas, e todos começaram a conversar e a comer. Depois, enquanto as meninas comiam bolo de chocolate, os pais provavam baklava e pudim de frutas.

Leena pôs-se a pensar como o fim de tarde tinha sido difícil. Recordou como, à noite, o jantar soubera maravilhosamente. Jejuar tinha-a levado a apreciar e sentir-se grata pelas suas bênçãos. Jejuar também a fez querer partilhar o que tinha.
No calor da cozinha, com a família e os amigos, Leena acabou, feliz, o seu pedaço de bolo.

♥♥♥♥

Nota do Autor

O Ramadão é o mês durante o qual os muçulmanos jejuam desde o período antes da madrugada até depois do pôr-do-sol, todos os dias. Enquanto jejuam, não comem ou bebem seja o que for, nem mesmo água.
As crianças não são obrigadas a jejuar mas, por vezes, vão praticando o jejum juntamente com as suas famílias. Espera-se que, quando os jovens atingem a fase da puberdade, passem a cumprir o jejum, desde que estejam fisicamente aptos para o fazer. Se alguém tiver um problema de saúde, como a diabetes, que o ou a impeça de jejuar, então ele ou ela não deve fazê-lo.

Asma Mobin-Uddin
A party in Ramadan
Honesdale, Boyds Mills Press, 2009
(Tradução e adaptação)

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