Preparando o Natal

O que estão a cozinhar, Jamela?

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O que estão a cozinhar, Jamela?

Gogo e a mãe estão a fazer planos para o Natal.
“Eu faço o pudim. Tu podes cozinhar uma galinha,” disse Gogo.
“E a Thelma vai fazer um belo arroz e guisado de marogo,” disse a mãe.
“Boa,” disse Gogo. “E teremos um ótimo jantar de Natal.”

Jamela sabia tudo sobre o Natal. Era a época em que se celebrava o aniversário do Menino Jesus com uma peça natalícia na escola. O Natal também significava presentes de Natal e reunião com a família.
Quando Gogo saiu, a mãe disse: “Vem Jamela, vamos até a casa da Srª. Zibi comprar uma das suas galinhas. Se a alimentarmos bem, estará linda e gordinha pelo Natal.”
A mãe deixou Jamela escolher a galinha – uma pequena, de linda cor vermelha. E a Srª. Zibi deu-lhes um saco de mielies.
“Podemos chamar-lhe Natal,” propôs Jamela.
A mãe riu-se.
“É um bom nome para a galinha do Natal, Jamela.”
Quando chegaram a casa, a mãe mostrou a Jamela a quantidade de água e de mielies de que a galinha iria necessitar todos os dias.
“Vê se ela come da tua mão,” sugeriu.
Muito a medo, Jamela pegou numa mão cheia de mielies amarelinhos.
‘‘Vê, mãe, ela está a comer!” gritou Jamela.
“Agora está na hora de dar de comer ao meu pintainho, anda! ” disse a mãe a sorrir.
Antes de ir para a cama, Jamela perguntou “Quanto falta para o Natal?’’
“Quando a nossa galinha estiver linda e gorda, então será Natal”, respondeu a mãe.

Todas as manhãs antes de ir para a escola, Jamela dava comida e água à galinha. Se tivesse tempo, deixava que Natal se sentasse no seu colo, e dava-lhe mielies da sua mão. Aquela ave gostava mesmo de comer! A mãe retirava os excrementos da galinha, que ela usava para fazer fertilizante para adubar as suas abóboras. E cada dia a galinha e as abóboras pareciam mais redondas e maiores!
Sempre que Gogo as visitava, perguntava “Como é que vai a nossa refeição de Natal?”
Jamela carregava o sobrolho e dizia “Está tudo a correr bem, Gogo.” Mas ela não gostava da maneira como Gogo lambia os lábios – exatamente como a senhora do anúncio de frango frito que dava na televisão. Na escola, fizeram uma representação do Natal. Havia anjos e bailarinos africanos. Jamela fazia de Maria, e transportava o Menino Jesus às costas como se fosse uma mãe verdadeira. Vuyo era um S. José muito elegante, com o seu chapéu Basutu e o manto. Tabu, Elliot e Zingi, com as suas camisas Madiba, eram uns Reis Magos magníficos. Cantaram muitas canções de Natal ao som de marimbas e tambores. E todos batiam palmas e cantavam.
Quando Jamela e a mãe chegaram a casa, a menina fez uma manjedoura para Natal.
“É uma linda manjedoura, mas espero que não te estejas a apegar demasiado a essa galinha,” disse a mãe.
“Não, mãe,” cantarolou Jamela, enquanto corria lá para fora a chamar “Natal! Natal! vem ver o que eu fiz para ti!”
A mãe ficou preocupada quando viu como Jamela e a galinha, agora já grande e gorda, pareciam felizes, sentadas lado a lado. Como é que ela ia conseguir tirar a galinha das mãos de Jamela e metê-la numa panela?

No dia anterior ao Natal, a Srª. Zibi apareceu por lá.
“Jamela, por favor, vai ver como é que a Thelma se está a sair com o arroz e o marogo,” disse a mãe.
Jamela olhou para as mãos grandes da Srª. Zibi enquanto esta as esfregava contra o avental. Pareciam a postos….
“Para de olhar e vai lá, Jamela,” repetiu a mãe.
Jamela sabia que era de má educação discutir com os crescidos, mas não estava a gostar nada do rumo das coisas.
“Está bem” disse Jamela, enquanto saía para casa de Thelma … com Natal nos braços.
Natal esvoaçou e grasnou. E quase se soltou dos braços de Jamela.
“Queres vender essa galinha?” gritou-lhe uma senhora que estava a cozinhar coxas de galinha para os seus clientes.
Jamela abanou a cabeça – “Aikona!” – e apressou-se a continuar.
Popó! Popó! buzinou um táxi. Sobressaltada, Jamela deu um salto e deixou Natal fugir. Risadas encheram a fila dos táxis enquanto a galinha se escapulia por entre as pernas, desaparecendo no meio da multidão.
“Natal! Natal!” choramingava Jamela. Mas não se via Natal em lado algum. Desaparecera!

Jamela caminhou devagar até casa. Ao fundo da sua rua, viu a mãe e a Srª. Zibi a correrem na sua direção. A mãe parecia preocupada. A Srª. Zibi parecia zangada. Como Jamela desejou ter asas que lhe permitissem voar sobre as cabeças delas, rua abaixo, até bem longe!
“Onde está a galinha?” arquejou a Srª. Zibi.
Jamela esvoaçou debilmente com os seus braços. “Foi-se,” disse ela.
“Oh, Jamela!” suspirou a mãe.
Jamela parecia penalizada – mas lá por dentro estava a sorrir. Onde quer que Natal estivesse, não seria na panela de alguém!
A mãe agarrou firmemente Jamela pela mão e foram para casa. Quando passaram por Archie, a mãe cumprimentou-o “Molo, Archie. Viste a nossa galinha?”
“Aikona,” respondeu Archie. “Mas se eu a vir, digo-lhe que andam à procura dela.”
Um pouco mais abaixo, Old Greasy Hands (O Velho Mãos de Sebo) estava a fazer a revisão a um carro.
“Molo, Greasy Hands!” berrou a mãe por cima de todo o barulho. “Viste a nossa galinha?’’
“Quêeee?” gritou Greasy Hands.
Mesmo nessa altura, um táxi fez uma travagem e parou.
Os passageiros gritaram “Hamba! Tira-a daqui, tira-a daqui!’’
A porta do táxi abriu e de lá saltou uma rechonchuda galinha vermelha.
Natal encrespou as penas, depois levantou voo – por cima do pavimento e pelo salão de cabeleireiro de Miss Style.
“Depressa, depressa!” gritava a mãe.
Dentro do salão, Natal corria desarvorada por cima dos balcões e das senhoras ainda por acabar de pentear. Secadores de cabelo, champô, pentes, laços e contas andavam pelo ar. Finalmente, a mãe agarrou num cesto e encurralou Natal.
“VIVA!” gritaram as senhoras, quando ela conseguiu atirar um cesto sobre a frenética galinha.
A Srª. Zibi meteu as mãos por debaixo do cesto e puxou Natal para fora. “Do cesto para a panela!” cantarolou.
“Oh mãe! Por favor não deixes a Srª. Zibi fazer mal à Natal!” chorou Jamela.
“Uma galinha é uma galinha!” disse rispidamente a Srª. Zibi.
“A Natal não é uma galinha,” berrou Jamela. “A Natal é minha amiga. E não se pode comer os amigos.”
A mãe olhou para as senhoras a pedir ajuda.
Mas todas sorriam meigamente para Jamela.
“Não se pode comer os amigos”, ecoaram em uníssono.
“Ga, tolices!”ralhou a Srª. Zibi.

Na manhã de Natal, Jamela ajudou a mãe a preparar a refeição de Natal. O rico fertilizante da galinha tinha dotado as abóboras de uma polpa macia e suculenta. Jamela retirou as pevides e pô-las de lado. A mãe encheu o espaço vazio com uma mistura de nozes, pão, manteiga e ervas aromáticas.
Quando Gogo e os outros membros da família chegaram, aromas de fazer crescer a água na boca invadiam a cozinha. Gogo inspirou fundo e perguntou “O que estão a cozinhar, Jamela?”
“É surpresa, Gogo,” respondeu Jamela.
Depois de todos terem trocado presentes, a mãe convidou a família a ir para a mesa e serviu a comida. O vapor dançava em volta do arroz da Thelma e do guisado de marogo. A mãe levantou a tampa da aromática e deliciosa abóbora assada. Jamela conseguia ver os olhos de Gogo à procura da galinha. Mas Gogo não disse nada. Todos estavam felizes por celebrar a refeição do dia do Natal em conjunto.
Depois do pudim, Gogo esfregou a barriga. Depois, olhando para a mãe, disse “Haai! Isto foi melhor que um hotel de cinco estrelas. Mas, Sisi, onde está a galinha?’’
Jamela saltou da mesa.
“Vou mostrar-ta, Gogo,” disse ela. Agarrando-lhe na mão, levou-a até ao pátio, onde Natal estava a regalar-se com um saboroso festim de pevides de abóbora.
“Vê, Gogo – está ali a galinha!” disse Jamela. “A mãe deu-ma de prenda de Natal. O nome dela é Natal.”
Gogo olhou para a linda galinha, mas não lambeu os lábios. Em vez disso, apertou Jamela contra a sua barriga cheia e disse “Bem, a mim parece-me um Natal muito feliz.”

PODES CRER!

Aikona (Xhosa/Zulu): Não!
Ga (Afrikaans): interjeição de discordância, desaprovação.
Haai (Xhosa): interjeição de surpresa.
Hamba (Ngum): Vai-te embora! Desaparece!
Marimbas (provavelmente Swahili): xilofone africano.
Marogo (Sotho): folhas verdes de vegetal, usadas para cozinhar.
Mielies (Afrikaans): milho.
Molo (Xhosa): Olá!
Sisi (Xhosa): irmã. As mulheres africanas são chamadas de “sisi”, (exceto as mulheres mais velhas, que são chamadas de “mama”). Uma mãe chama “sisi” à sua filha como uma manifestação de ternura.
Viva: Uma saudação de vitória, de origem portuguesa, encontrada em Angola e Moçambique, aqui usada como um grito de celebração.

Niki Daly
What’s cooking, Jamela?
London, Frances Lincoln, 2002
(Tradução e adaptação)

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