Preparando o Natal

Uma cadelinha chamada “Natal”

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O ano do meu décimo aniversário foi também o primeiro ano em que toda a nossa família tinha emprego.

O meu pai fora dispensado do seu emprego de sempre, mas encontrara trabalho de pintura e carpintaria um pouco por toda a cidade. A minha mãe costurava vestidos elegantes e fazia tartes para fora, e eu trabalhava depois das aulas e aos fins de semana para a Srª. Brenner, uma vizinha que fazia criação de cães da raça cocker spaniel. Eu adorava o meu trabalho, principalmente o ter de cuidar e de alimentar ninhadas de travessos cachorrinhos. E, com um certo orgulho, dava tudo o que ganhava à minha mãe para ajudar nas despesas. Mas o trabalho era tão divertido que tê-lo-ia mesmo feito sem receber qualquer pagamento.

Durante esses “tempos difíceis”, sentia-me perfeitamente à vontade ao usar vestidos de lojas baratuchas e calças de ganga já muito coçadas. E dizia adeus aos cachorrinhos que partiam para as famílias abastadas sem qualquer pena.

Mas tudo isso mudou quando uma ninhada chegou ao canil.

Eram seis e seriam os últimos cachorros disponíveis para venda até ao Natal.

Quando os ia alimentar pela primeira vez…, o meu coração balançou. Uma cachorrinha de pelo brilhante e avermelhado, com tristes olhos castanhos, abanou a cauda e inclinou-se para a frente para me saudar.

— Parece que já tens aqui uma amiga! — sorriu a Srª. Brenner. — Vais ficar encarregada da alimentação dela.

“Natal,” murmurei, segurando a cadelinha bem junto a mim. Senti imediatamente que ela era especial. E cada dia reforçava mais ainda um inexplicável laço entre nós. O Natal aproximava-se e, uma noite ao jantar, dei por mim toda entusiasmada a enaltecer, pela centésima vez, as qualidades especiais da Natal.

— Ouve, filha.— O meu pai pousou o garfo. — Talvez um dia possas ter um cachorrinho só teu, mas os tempos agora são difíceis. Sabes que fui dispensado na fábrica. Se não fosse o trabalho que tive este mês com a remodelação da cozinha da Srª. Brenner, não sei o que faríamos.

— Eu sei, Pai, eu sei — murmurei.

Não conseguia suportar a expressão de dor na cara dele.

— Vamos ter de enfrentar com coragem este novo ano — suspirou.

Na véspera de Natal, só a Natal e um macho grande sobravam.

— Vêm buscá-los mais tarde — explicou a Srª. Brenner. — Conheço a família que vai levar a Natal — continuou ela. — Vai ser criada com imenso amor.

“Ninguém poderá amá-la tanto como eu”, pensei. “Ninguém.”

— Poderias vir amanhã de manhã? Vou desmamar alguns cachorrinhos novos no dia a seguir ao Natal. Limpas o chão com óleo de pinheiro e montas uma caminha fresca para a nova ninhada. Poderias fazer-me o enorme favor de alimentar também os cães do canil? Vou ter a casa cheia de visitas. Oh, e pede ao teu pai que passe aqui contigo. Uma das portas de um armário da cozinha precisa de um ligeiro ajuste. Que belo trabalho ele tem feito!

Acenei com a cabeça, mal conseguindo concentrar-me nas palavras. Os novos cachorrinhos seriam lindos, mas nunca haveria outra Natal. Nunca! A ideia de outra pessoa a criar a minha cachorrinha era demasiado difícil de aguentar.

Na manhã de Natal, depois da missa, abrimos os nossos escassos presentes.

A minha mãe reinventou o avental que eu lhe tinha feito com as minhas economias, dando-lhe um estilo de vestido parisiense. O meu pai delirou com a pulseira de relógio que lhe ofereci (nem sequer era de couro verdadeiro, mas ele substituiu logo a sua pulseira já puída e ficou a admirar a nova como se fosse de ouro). Deram-me um lindo livro e eu abracei os dois.

Nem sequer tinham presentes para dar um ao outro. Que Natal tão triste! Mas os três fingíamos que assim não era. Depois do pequeno-almoço, o meu pai e eu mudámos de roupa para ir a casa da Srª. Brenner. No curto passeio, cumprimentámos e conversámos com os vizinhos que passavam, mas evitávamos deliberadamente os assuntos “Natal” e “cachorrinhos”.

O meu pai acenou-me um adeus enquanto se dirigia para a porta da cozinha dos Brenner.

Fui diretamente à casota dos cachorrinhos, no pátio de trás. Estava tudo estranhamente silencioso: nada de rosnados, de tímidos latidos e nem sequer o farfalhar do papel. Tudo parecia tão triste e sombrio como eu! O meu cérebro deu ordem para começar a limpeza, mas lá no fundo do meu coração só queria sentar-me no chão vazio e gritar.

É engraçado olhar para trás, para os dias da infância. Alguns acontecimentos são vagos, os detalhes são incompletos e as caras indefinidas. Mas lembro-me tão claramente de voltar para casa nessa tarde de Natal! De entrar na cozinha, com o aroma do assado a cozinhar lentamente no fogão… Lembro-me da minha mãe a clarear a garganta e a chamar pelo meu pai, que apareceu subitamente à entrada da sala de jantar.

Com a rouquidão na voz, ele sussurrou: “Feliz Natal, filha!” E, sorrindo, pousou suavemente a Natal, embrulhada num laço vermelho, nos meus braços. O amor dos meus pais por mim misturou-se com o meu amor arrebatador pela Natal e jorrou do meu coração, como uma radiante fonte de alegria. Nesse momento, aquele Natal tornou-se, sem sombra de dúvida, o Natal mais belo que jamais vivi!

Toni Fulco

Jack Canfield & Mark Victor Hansen
Chicken Soup for the Soul – Christmas Cheer
Chicken Soup for the Soul Publishing, LLC, 2008
(Tradução e adaptação)

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