Preparando o Natal


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Uma estrela – Manuel Alegre

Todos os anos, pelo Natal, eu ia a Belém. A viagem começava em Dezembro, no princípio das férias. Primeiro pela colheita do musgo, nos recantos mais húmidos do jardim. Cortava-se como um bolo, era bom sentir as grandes fatias despregarem-se da areia, dos muros ou dos troncos das árvores velhas, principalmente da ameixieira. Enchia-se a canastra devagar, enquanto a avó ia montando o que hoje se chamaria as estruturas, ou mesmo as infra-estruturas, junto da parede da sala de jantar que dava para o jardim. Eram caixotes, caixas de chapéus e de sapatos viradas do avesso, tábuas, que pouco a pouco ela ia cobrindo de musgo, ao mesmo tempo que fazia carreiros e caminhos com areia e areão. Mais tarde, os rios e os lagos, com bocados de espelhos antigos, de vidros ou mesmo de travessas cheias de água. Até que todos os caixotes, caixas e tábuas desapareciam. Ficavam montanhas, planícies, rios, lagos. Era uma nova criação do mundo. Aqui e ali uma casinha ou um pastor com suas cabras. E todos os caminhos iam para Belém.

Não era como o presépio da Igreja que estava sempre todo pronto, mesmo antes de o Menino nascer. A cabana, a vaca, o burro, os três reis do Oriente. Maria, José, Jesus deitado nas palhinhas. Via- se logo que era a fingir. Não o da avó, que era mais do que um presépio, era uma peregrinação, uma jornada mágica ou, se quiserem, um milagre. Nós estávamos ali e não estávamos ali. Continuar a ler

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Rudolfo e Brita

Sem TítuloAinda ele vinha a subir as escadas e Joana já o ouvia cantar: “Era uma vez uma rena…” Joana soltou um gemido e gritou pela mãe, atarefada na cozinha:

— O Rudolfo já lá vem!

Jacob era o nome verdadeiro de Rudolfo e era o irmão mais novo de Joana. Andava na primeira classe e fora lá que lhe ensinaram aquela canção idiota e esquisita. Por acaso, a culpa era da Olívia, que no ano passado lhe tinha oferecido a rena Rudolfo em peluche.

“…chamara-lhe Rudolfo…” Jacob abriu a porta e não parava de cantar, enquanto tirava a roupa. “… com o nariz vermelho…” Joana levou as mãos aos ouvidos. Era de ficar maluca!

— Mãããe! — gritou em socorro. Mas a mãe limitou-se a aparecer à porta da cozinha, rindo enquanto limpava as mãos.

Jacob não largava Rudolfo, embora Joana já lhe tivesse explicado cem vezes que aquele boneco era só para o Natal. Pelo volume da canção, reparou que o irmão se dirigia ao quarto dela.

Quando a porta se abriu, uma almofada voou direita à cabeça de Jacob acompanhada de uma ordem:

— Cala a boca!

— Estás maluca? — Jacob deu um pontapé à almofada. — Sempre é melhor do que a tua Brita Suspiro! — respondeu-lhe furiosamente.

— Chama-se Britney Spears!! Continuar a ler


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Dia vinte e quatro, véspera de Natal – Peça de teatro

Sem TítuloCENA 1

16:00 / Dentro de casa

Noite Feliz” tinha estado a tocar continuamente em todas as estações de rádio. A neve caía suavemente. Tinha sido assim todo o dia, mesmo à porta de casa.

Um Natal Branco! Nunca antes na vida tinha tido um como este. Era absolutamente lindo.

Este dia vinte e quatro de dezembro.

E o melhor está ainda por vir.

A noite. A que chamam a “noite santa”. Mas isso é só a partir das oito. Até lá reina o caos. Tal como agora.

A minha mãe estava numa fúria! Mais uma vez estava completamente fora de si. A mesma cena, o ano é que era diferente. Sim, o frenesim do Natal estava de regresso uma vez mais! E todos os anos, as razões para os seus acessos de fúria eram diferentes.

Hoje, havia quatro razões.

Razão Número Um:

Às onze da manhã, o meu pai tinha finalmente comprado a árvore de Natal. Continuar a ler


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O milagre

Sem TítuloA dificuldade que se tem no relacionamento com Don Crescenzo resulta do facto de ele ser surdo. Não ouve a mais pequena coisa, mas é demasiado orgulhoso para ler nos lábios. Além disso, não se pode iniciar uma conversa com ele escrevendo simplesmente qualquer coisa num papel. Não; tem de se fazer de conta que ele é ainda uma parte do nosso mundo barulhento e falador.

Quando perguntei a Don Crescenzo como passara o Natal, estava ele sentado numa cadeira de vime à entrada do seu hotel. Eram seis horas e o cortejo das caravanas tinha passado. O silêncio reinava e sentei-me na outra cadeirinha de vime, exatamente por baixo do barómetro com a imagem de publicidade da linha marítima, um barco branco no mar azul. Repeti a minha pergunta e Don Crescenzo levou as mãos às orelhas e abanou a cabeça com pesar. Em seguida, retirou um bloquinho e um lápis do bolso; eu escrevi a palavra Natale e olhei-o, expectante.

Eis, pois, a minha história de Natal que é, na verdade, a de Don Crescenzo.

Outrora pobre, Don Crescenzo é hoje um homem rico, patrão de mais de cem empregados, dono de grandes vinhas e pomares de limões, e de sete casas. Imaginem um rosto que, a cada ano de surdez, vai ficando mais suave, como se os rostos fossem sendo formados e marcados pelo ato constante de falar e responder. Deviam vê-lo a passear por entre os hóspedes do se­u hotel, atencioso e triste, imensamente só! É ainda conveniente saberem como gosta de contar coisas da sua vida e que não fala aos gritos, mas em voz baixa.

Já o escutara muitas vezes e é claro que conhecia a história do Natal. Sabia que começava com a noite em que a montanha “viera”. Continuar a ler


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Roubo na noite de Natal

— Não tens coragem, não tens coragem…

— Claro que tenho! — atalha Max incisivamente.

O que tinha de especial? Se a velha senhora era realmente quase surda, como diziam os colegas, então não iria conseguir ouvi-lo tirar o anjo do parapeito da janela que se encontrava meio aberta. Só tinha de esperar que um deles tocasse à campainha e a senhora fosse atender, e tinha tempo suficiente para actuar.

— Então vamos lá! — ordenou Rica, o líder do grupo.

Deslizou furtivamente ao longo da parede lateral da casa modesta até chegar à janela. Ali estava o anjo doirado com uma harpa na mão e a boca aberta, como se entoasse uma canção que só ele ouvia. Visto assim de perto, nem sequer era bonito: estava muito estalado e o dourado apresentava-se tão gasto que em vários sítios tinha até caído. Continuar a ler


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Natal sobre trenós

Quando me mudei para o Alasca, fui viver com a família do meu marido enquanto ele se encontrava em Montana, onde trabalhava. Nunca estivera com uma família numerosa, e ele era o mais velho de dez irmãos, a maior parte deles casados e com filhos. Todos viviam num raio de quarenta milhas e não se escusavam a uma reunião de família.

Ninguém tinha dinheiro. Os miúdos eram pequenos, as famílias eram jovens, e muitos dos pais possuíam mais do que um emprego para conseguirem fazer face às despesas.

Mas naquele primeiro ano, Natal de 1981, mostraram-me o que era dar. Continuar a ler