Preparando o Natal

O milagre

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Sem TítuloA dificuldade que se tem no relacionamento com Don Crescenzo resulta do facto de ele ser surdo. Não ouve a mais pequena coisa, mas é demasiado orgulhoso para ler nos lábios. Além disso, não se pode iniciar uma conversa com ele escrevendo simplesmente qualquer coisa num papel. Não; tem de se fazer de conta que ele é ainda uma parte do nosso mundo barulhento e falador.

Quando perguntei a Don Crescenzo como passara o Natal, estava ele sentado numa cadeira de vime à entrada do seu hotel. Eram seis horas e o cortejo das caravanas tinha passado. O silêncio reinava e sentei-me na outra cadeirinha de vime, exatamente por baixo do barómetro com a imagem de publicidade da linha marítima, um barco branco no mar azul. Repeti a minha pergunta e Don Crescenzo levou as mãos às orelhas e abanou a cabeça com pesar. Em seguida, retirou um bloquinho e um lápis do bolso; eu escrevi a palavra Natale e olhei-o, expectante.

Eis, pois, a minha história de Natal que é, na verdade, a de Don Crescenzo.

Outrora pobre, Don Crescenzo é hoje um homem rico, patrão de mais de cem empregados, dono de grandes vinhas e pomares de limões, e de sete casas. Imaginem um rosto que, a cada ano de surdez, vai ficando mais suave, como se os rostos fossem sendo formados e marcados pelo ato constante de falar e responder. Deviam vê-lo a passear por entre os hóspedes do se­u hotel, atencioso e triste, imensamente só! É ainda conveniente saberem como gosta de contar coisas da sua vida e que não fala aos gritos, mas em voz baixa.

Já o escutara muitas vezes e é claro que conhecia a história do Natal. Sabia que começava com a noite em que a montanha “viera”. Sim, fora assim que gritaram: “a montanha vem aí!”. Retiraram a criança da cama e seguiram pelo caminho das rochas. Don Crescenzo tinha, na altura, sete anos e, quando falava daquilo, levava as mãos aos ouvidos para dar a entender que aquela noite fora, decerto, a culpada do seu sofrimento.

“Eu tinha sete anos e estava com febre”, disse ele, apertando as mãos contra as orelhas. “Estávamos todos em camisa de dormir e isso foi o que nos restou depois de a montanha ter empurrado a nossa casa para o mar: ficámos apenas com a camisa no corpo e nada mais. Fomos acolhidos por familiares e, mais tarde, outros parentes deram-nos um terreno, o mesmo onde hoje se encontra o Albergo.

Antes de o inverno chegar, os meus pais construíram aí uma casa. O meu pai fez o trabalho de pedreiro e a minha mãe arrastava-lhe os tijolos, dentro de sacos, pela ladeira abaixo. Era pequena e frágil e, quando pensava que não havia ninguém por perto, sentava-se um momento nas escadas, suspirando. E as lágrimas corriam-lhe pela face. Perto do fim do ano, a casa estava acabada e nós dormíamos no chão, embrulhados em cobertores e enregelados.”

“E depois chegou o Natal!”, disse eu, apontando para a palavra Natale escrita na primeira folha.

“Sim”, respondeu Don Crescenzo, “depois chegou o Natal e, nesse dia, eu estava triste como nunca estivera em toda a minha vida. O meu pai era médico, mas daqueles que não apontavam as contas. Tratava dos doentes e, quando eles perguntavam quanto deviam, ele respondia que, primeiro, tinham de comprar os remédios, e depois a carne para a sopa, e que depois lhes diria quanto era. Mas nunca o fazia. Conhecia as pessoas muito bem e sabia que não tinham dinheiro. Não era capaz de forçá-las, nem quando perdemos tudo e as nossas últimas economias foram gastas com a construção da casa. Fê-lo apenas uma vez, pouco antes do Natal, no dia em que queimámos a última lenha no fogão.

Naquela noite, a minha mãe trouxe um maço de papéis brancos e pousou-os diante do meu pai. Ditou-lhe uma lista de nomes. O meu pai escrevia-os nos papéis, com alguns números à frente, mas quando acabou, levantou-se e atirou as folhas para o lume do fogão, que estava a apagar-se. Fiquei contente com as belas chamas que o lume fez, mas a minha mãe estremeceu e olhou para o meu pai com tristeza e indignação.

Aconteceu que, no dia vinte e quatro de dezembro, não tínhamos mais madeira, nem comida, nem roupa decente para irmos à igreja. Não acho que os meus pais se tivessem preocupado muito com isso. Os adultos a quem tal acontece, estão certamente convencidos que dias melhores hão de vir e que vão então poder comer e beber, e rezar a Deus como tantas outras vezes tinham feito no decorrer dos tempos. Mas, para uma criança, é completamente diferente. Uma criança senta-se à espera do milagre, e quando o milagre não vem, acha que tudo acabou definitivamente…”

A estas palavras, Don Crescenzo debruçou-se e olhou para a estrada, como se alguma coisa lhe prendesse a atenção. Na verdade, tentava só esconder as lágrimas. Procurava que eu não visse como o veneno da deceção ainda hoje invadia todas as células do seu corpo.

“A nossa festa de Natal”, continuou ao fim de um momento, “é, de certeza, totalmente diferente dos Natais que se celebram no seu país. É uma festa muito barulhenta e alegre. O Menino Jesus é levado em procissão num relicário de vidro, acompanhado pela banda. Durante muitas horas, são lançados tiros de morteiro e o eco dos tiros é devolvido pelos rochedos, de maneira que parece uma violenta batalha. Os foguetes sobem para o ar, abrem-se em palmeiras gigantes e descem para o vale numa chuva de estrelas. As crianças, barulhentas, gritam, e o mar marulha tão alto com as suas ondas cor de chumbo, que é como se soluçasse e cantasse de alegria ao mesmo tempo. Esta é a nossa festa de Natal e esse dia é passado nos seus preparativos. Os rapazes preparam os foguetes enquanto as meninas fazem coroas e limpam os peixes prateados que penduram em volta da Madonna. Em todas as casas se fazem os assados, os bolos, e se prepara o xarope doce.

Em nossa casa também fora assim, tanto quanto me lembro. Mas, na noite de Natal a seguir ao desmoronamento da montanha, a nossa casa estava horrivelmente silenciosa. Não ardia um lume e, por isso, fiquei lá fora tanto tempo quanto me foi possível, porque sempre estava mais quente do que no interior. Sentado nas escadas, olhava para cima, para a estrada, onde as pessoas passavam e os automóveis, com as suas fracas lanternas de azeite, apareciam e desapareciam. Havia muita gente na rua. Lavradores que iam com as famílias à igreja e outros que ainda tinham coisas para vender, como ovos, galinhas vivas e vinho. Ali sentado, eu ouvia o cacarejar das galinhas e as conversas divertidas das crianças, que contavam umas às outras tudo o que iriam fazer naquela noite.

Eu seguia cada carro até desaparecer no buraco escuro do túnel. Depois, rodava a cabeça e procurava outro. Assim que a estrada foi ficando mais silenciosa, pensei que a festa devia ter começado e ia começar a ouvir alguns dos estoiros dos foguetes e os gritos de entusiasmo e de alegria. Mas não ouvia nada mais para além do barulho do mar a bater contra os rochedos e a voz da minha mãe que rezava e me chamava para que me juntasse à litania. Foi o que acabei por fazer, mas sem alma e contrariado. Tinha muita fome e queria a minha comida, carne, doces e vinho. Mas, acima de tudo, queria a minha festa, a minha bela festa…

De repente, tudo mudou. Inexplicavelmente.

Os passos na estrada pararam e os carros também. À luz das lanternas, vimos um enorme saco a ser atirado para o nosso jardim, cestos cheios até cima pousados à beira da estrada. Um carregamento de madeira e lenha miúda escorregava pelas escadas abaixo e, ao subi-las às apalpadelas, encontrei no murete mais baixo, dentro de pratos e bacias, ovos, galinhas e peixe.

Os misteriosos barulhos demoraram a terminar e nós pudemos ir ver quão ricos de repente tínhamos ficado. A minha mãe foi para a cozinha e acendeu o fogo. Eu fiquei lá fora a inalar ardentemente o aroma da mistura de azeite quente, cebolas, carne de galinha picada e alecrim.

Naquele momento, eu não sabia o que os meus pais já supunham: que os doentes do meu pai, os antigos devedores, tinham combinado fazer-lhe aquela surpresa. Para mim, tudo caiu do céu, os ovos e a carne, a luz das velas, o fogo e o lindo bibe que retirei de um saco de roupas e vesti tão depressa quanto pude. “Corre”, disse a minha mãe, e eu corri pela estrada abaixo, pelo comprido túnel escuro, ao fundo do qual faiscavam luzes coloridas.

Quando cheguei à cidade, vi logo de longe o dossel doirado, sob o qual o bispo iria ser transportado pelas íngremes escadas acima. Ouvi os tambores e os timbales de “Viva”, e gritei também com todas as minhas forças. Nas torres abertas, os sinos maiores começaram então a balançar e a tocar.”

 

Don Crescenzo calou-se. Sorria alegremente.

Ouvia ainda aqueles barulhos intensos que, durante tanto tempo, se haviam calado para ele e que, na sua solidão, possuíam um significado maior do que para qualquer outra pessoa: altruísmo, amor de Deus, renascimento da vida a partir da escuridão da noite.

Olhei para ele e peguei no bloquinho.

“Devia escrever, Don Crescenzo. As suas memórias.”

“Sim,” respondeu Don Crescenzo, “devia fazer isso.”

Marie Luise Kaschnitz

Gottfried Natalis (org.)
Weihnachtserzählungen
Frankfurt am Main, Insel Verlag, 1994
(Tradução e adaptação)

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