Preparando o Natal

A tua véspera de Natal – David Mourão-Ferreira

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Impecável. Foi impecável a tua véspera de Natal. Não te poupaste a nenhum esforço, a nenhuma despesa. Trataste dos mínimos pormenores com a antecedência necessária. Pareceram realmente espontâneos os gestos que deviam ser, ou pelo menos parecer, realmente espontâneos. Houve alegria, houve calor e gratidão à tua volta. Houve também, é certo, uns súbitos abismos de silêncio, uns turvos remoinhos de silêncio. Mas não terás sido tu quem afinal os procurou?
E podes crer que ninguém deu por nada. Correu tudo bastante bem. Logo pela manhã, os teus empregados – embora não manifestassem a exultante gratidão com que sonharas — sempre se mostraram tepidamente reconhecidos com o inesperado aumento das gratificações. Foi uma bela decisão da tua parte: tanto mais bela quanto pareceu tomada à última hora, no preciso momento em que o pessoal à tua roda se reunia para a já tradicional apresentação das Boas Festas. Só o Azevedo se encontrava, há mais de um mês, ao corrente dos teus propósitos; só com ele examinaras, atentamente, ao longo de várias noites, a situação da firma neste último ano. Mas com o Azevedo podes tu contar. Podes contar sempre com aquela gaguejante discrição que toda se enrola nas curvaturas do Azevedo. E, no entanto, às vezes gostarias de lhe dizer que tão patente fidelidade lhe dobra excessivamente a espinha.
Mas fizeste muito bem em convidá-lo depois para almoçar contigo, no espaventoso grill desse hotel onde jamais ele pensara pôr os pés. O pior é que foi aí, durante o almoço, que julgaste sentir a primeira tontura — como se um abismo se tivesse cavado por debaixo da mesa ou como se a própria mesa, do lado onde estavas, se encontrasse em risco de ser tragada por um remoinho.
O Azevedo não se cansara de te louvar; e de informar-te, em doses iguais de muito zelo e algum exagero, das óptimas reacções que o teu gesto provocara em todo o pessoal. Por fim, com bagas de suor já nascidas do esforço de atacar uma laranja com garfo e faca, cometeu a imprudência de repetir-se — como se acaso o ignorasses — que sempre soubeste fazer bem as coisas. Mas de repente deve ter surpreendido qualquer sombra nos teus olhos: apressou-se imediatamente a inquirir se te sentias mal. Respondeste que não; que já passara; que tinha sido só uma tontura. Agora sabes que nem chegou a ser o que dizias; ou que foi mais do que disseste. Descobriras, simplesmente, nas palavras do Azevedo, uma grotesca e impiedosa caricatura de ti próprio: tão grosseiro era o traço com que elas te desenhavam que ficavas com beiços e queixo de quem julga, sob uma testa de dois centímetros, que fazer o bem e fazer bem as coisas serão afinal a mesmíssima coisa.
Aproveitaste a seguir os últimos minutos do almoço (tolo serias se o não fizesses) para cuidadosamente recapitular, com o Azevedo, alguns assuntos porventura pendentes e para o encarregares ainda de umas tantas tarefas. Retiraste do bolso a agenda (mais uma agenda quase no fim!) e lá foste conferindo o cumprimento de certas ordens, a exactidão de uns tantos endereços, por entre os goles de café e do conhaque, por entre o fumo das cigarrilhas de circunstância.
Podes estar tranquilo: seguiram, com certeza, a tempo e horas, todas as caixas de charutos, todos os caixotes de espumante, todos os isqueiros em que mandaste gravar o nome da firma. Amigos, conhecidos, fornece¬dores, clientes, agentes, intermediários, — todos seguramente receberam os teus brindes de Boas Festas. Duas das furgonetas da casa, incumbidas da distribuição, não terão feito outra coisa em todo o dia.
Entretanto (por iniciativa do Azevedo), já tinhas o porta-bagagens do Volvo conscienciosamente atulhado com os presentes para a família. Findo o almoço, foi só pegares no volante; e o Azevedo, depois de te fechar a porta, ainda ficou, fora do passeio, a dissolver-se em mesuras.
Nem te deste ao trabalho de verificar a cor dos vestidos ou a marca dos perfumes que tinhas mandado comprar para a tua mulher e para a tua filha; sequer o nome dos livros ou a qualidade dos brinquedos destinados aos dois gémeos; muito menos, ainda, quais seriam, este ano, as lembranças para a tua cunhada e para a governante. Felizmente para ti, até nisso podes contar com o Azevedo, que já se vai habituando a não ter mau-gosto.
Só em plena estrada, quando vinhas a caminho da quinta, reparaste que te esqueceras do teu genro: hás-de levar tempo a considerá-lo da família. Mas não é certo que ele entrou na família contra tua vontade? E não é certo que faz sempre tudo para se manter à margem, sempre a tirar da barba hirsuta diatribes e remoques de toda a espécie? De qualquer modo, não seria difícil remediar o esquecimento. Mal chegaste à quinta, mandaste apartar e embrulhar três garrafas daquele whisky de que não gostas (do que te enviaram o ano passado) e bem viste, depois, como ele ficou satisfeito (embora talvez contrafeito por estar satisfeito), quando à meia-noite lhas ofereceste.
Vês? Não foi nada má a ideia deste primeiro Natal na quinta. No entanto, assim que chegaste, às quatro e meia da tarde, sentiste de novo entreabrir-se, sob os teus pés, aquela voragem de silêncio. A tua mulher tivera ainda de voltar a Lisboa, com a irmã, para algumas compras de última hora; só retornariam, já noite fechada, na companhia da tua filha e do teu genro. A casa dividia-se, por enquanto, em largas zonas da mais desamparada solidão e em dois pequenos focos de morna actividade: a cozinha, onde parolavam as criadas com a mulher do caseiro, e a sala grande do primeiro andar, já com a lareira acesa e com os teus rapazes, moles e magros, iguais como dois círios, a darem os últimos retoques no presépio. Através das demais divisões, apenas deslizava, a espaços, como um fantasma, a sombra da governante.
Às seis da tarde já não sabias que fazer. Não falando no frio e na humidade, estava demasiado escuro para andar lá por fora. Tiveste de intervir, por duas vezes, em pequenas questões que entre os teus filhos se acenderam. Só por ser véspera de Natal é que não aplicaste um tabefe em cada um. Mostravam-se ambos, aliás, — eles que geralmente se dão tão bem! — implicativos, impacientes, morbidamente insubmissos. E um cão, ao longe, começara a uivar.
Àquela hora, em Lisboa, as ruas estariam cheias de gente… Haveria o calor das luzes, arabescos e serpentinas de luzes, uma ponta de febre a empolgar a multidão, a mágica euforia dos encontros inesperados, o bafo tépido das lojas a derramar-se nos passeios, a agitação de festa que precede a Festa, — tudo aquilo, enfim, a que pretenderas fugir com a solu¬ção do Natal na quinta. Pois seria possível que te apetecesse tamanho tumulto, semelhante balbúrdia? Por muito que te espantasse, parecia-te que sim. Deste contigo a fazer contas: ida e volta, uma hora; mais uma hora que por lá andasses… Era evidente que tinhas tempo.
Mas conseguiste resistir a essa absurda tentação, e foste procurar, ao lado da lareira, na estante cavada na parede, um livro ou uma revista que te ajudassem a passar o tempo.
Deparaste, porém, com um maço de jornais do ano passado, do Verão do ano passado. Grandes títulos a referirem acontecimentos que na altura pareciam grandes. Nem poderias dizer, ao certo, se bem chegaras a dar por eles. No entanto, de um ou outro, mais anódino, paradoxalmente conservavas tão fresca recordação como se fossem da véspera. E entanto já tinham rolado dezasseis meses! Mas que estariam ali a fazer aqueles jornais? De súbito, perante uma data, compreendeste: eram os jornais em que viera publicada a participação da morte da tua mãe, a notícia do enterro, o convite para a missa do sétimo dia. Ali tinham ficado aquele tempo todo, não por incúria ou esquecimento, mas porque o Azevedo organizara, no escritório, com recortes de outros exemplares, um dossier completo. De qualquer modo, trataste de recortar, pacientemente, os duplicados que vinham assim ao teu encontro; e por fim recolheste-os na carteira, ao lado do retrato da tua mãe. Só depois atiraste ao fogo o maço dos jornais — como se pretendesses, com esse gesto, para sempre queimar aqueles dias.
Saberias acaso explicar como de novo te encontraste ao volante do carro? Não tinhas, no entanto, a impressão de fugir; sequer a de buscar fosse o que fosse. Era apenas como se urgisse completar, para lá do nevoeiro, o ritual de guardar os recortes, a decisão de queimar os jornais. Os faróis do automóvel encaminhavam-te para Lisboa, a preceder-te, a orientar-te, como as mãos do sonâmbulo que vão à frente rasgando a escuridão. Confusamente compreendias que tinha sido já um aceno, embora falso, o das ruas cheias de gente, cheias de luzes e de bulício. Era afinal outra Lisboa que a tua alma te pedia. Evitaste, por isso mesmo, ao chegar à cidade, as avenidas que atravessam os novos bairros e conduzem ao centro, para seguires à beira-rio, por entre as docas, até subires, por fim, à rua onde nasceste, onde a infância te correu.
Deixaste o carro ao pé do arco: começavam ali os teus reinos de outrora. E principiaste a trepar a rua estreita, ziguezagueante, de casas pobres e sombrias que alternavam, agora, com prédios novos não menos lúgubres. Como o Natal continuava a chegar timidamente àquelas paragens! Havia apenas, nalgumas montras, um sortido de objectos mais faiscantes, votos de Boas Festas desenhados nos vidros com algodão, lampadazinhas de cor a iluminarem um ou outro modestíssimo presépio.
E, de repente, aquele abalo que sentiste. Já sabias que o prédio tinha sido demolido, pouco depois da morte da tua mãe; mas não esperavas encontrar de chofre, em lugar dele, esse imenso montão de escombros — e, por cima, um tão ostensivo cubo de nada no local exacto onde a vossa casa tinha existido. Surpreendeste-te a reconstituir, por alturas do primeiro andar, a caprichosa sucessão das quatro acanhadas divisões, a disposição dos móveis dentro de cada uma, até mesmo o volume, a forma, a cor, o tacto, o cheiro de alguns deles. E tudo aquilo te pareceu perfeito, milagrosamente certo à força de ser simples.
Então, compreendeste as razões da tua mãe para tão apegada se sentir àquelas coisas e para só consentir em passar curtíssimas temporadas em tua casa. Mas compreendeste também, pela primeira vez, como tu próprio, por comodismo, antes de haveres entendido o que entendias agora, te dispunhas sempre a aceitar essas mesmas razões; e como essas mesmas razões, no fim de contas, de premeditada desculpa te serviam para não insistires suficientemente com ela. O pior é que os dois factos te apareciam com idêntico peso, um e outro tão maciços e inamovíveis que não te davam espaço para teres remorsos nem para os não teres. E concluíste que não é fácil, em estado puro, poder sentir-se o quer que seja: muito menos alguma coisa que em bloco te pungisse, mas que de súbito, e em bloco, ao mesmo tempo te libertasse.
Desceste e subiste a rua, tornaste a descê-la, voltaste a subi-la. De cada vez que paravas diante dos escombros, animava-te ainda a esperança de te sentires totalmente ilibado ou de enfim experimentares um remorso a valer. Em certos momentos, quando mais próximo te julgavas de o atingir, mais aconchegado se recompunha, na tua memória o interior da casa desaparecida; e, depois, era como se a tua memória o projectasse sobre aquele écran de vácuo e de penumbra. Aliás, com os olhos fechados ou abertos, reconstituía-se tudo do mesmo modo: o quarto da tua mãe, o teu quarto; a cozinha onde a um canto se improvisara a minúscula casa de banho; a sala de estar, e de jantar, com a sacada sobre a rua; os vasos com begónias, a máquina de costura, o soalho encerado, os tectos baixos com florões de estuque; o armário enorme, que atravancava o corredor; e a talha de barro vidrado sobre o poial da cozinha; e a varanda, ao fundo, com a escada de ferro que dava para o quintal.
Vias tudo com tanta nitidez que se tornou praticamente um jogo, de certa altura em diante, ires sobrecarregando de pormenores, que há muito supunhas esquecidos, aquele cenário já não atulhado de móveis, de objectos, de utensílios, de bugigangas. Mas subitamente reparaste, quase aterrado, que só não conseguias imaginar, ali dentro (ali dentro?), a presença viva de quem quer que fosse. Nem o que mais te agradaria reevocar nesse instante: a atmosfera — que apenas abstractamente recordavas — de certas noites de Natal. E foste sensato em não ter insistido.
Mais tarde, de novo no automóvel, já fora de Lisboa, perguntaste a ti próprio se não teria sido um capricho de rico esse teu gesto de buscares, no passado, o cenário longínquo dos teus Natais de pobre. Melhor seria, de qualquer modo, não dizeres nada a ninguém. Quem saberia compreender-te? O teu genro deixaria escapar, de entre a barba agressiva, qualquer coisa como «complexo de culpa». O Azevedo, sim, haveria de louvar-te: tanto, porém, que ficarias enojado de ti mesmo. A tua mulher talvez sorrisse com amizade; ou talvez antes por distracção. E a tua filha evitaria, por todas as formas, dar a entender fosse o que fosse. Quanto aos rapazes — ainda não têm idade para entender. Mas sentias-te, apesar de tudo, inexplicavelmente mais completo: como se, pelo menos, tivesses tentado restaurar, dentro de ti, de ti para ti, um circuito que se encontrava interrompido.
E a reunião, à noite, correu o melhor possível. Nem te mantiveste, como é costume, em pé-de-guerra com o teu genro. Houve alegria, houve calor e gratidão à tua volta. Foram espontâneos os gestos que deviam ser espontâneos. Não há razão, agora, para teres ficado nesta espertina. Trata mas é de adormecer. Já é tarde. Ou cedo ainda, se preferes. Mais minuto, menos minuto, começarão os galos a cantar.

David Mourão-Ferreira
in «Natal»
(Arcádia)

João Alfacinha da Silva (Org.)
Textos para o Natal
Edição do F. A. O. J. Série C, Nº 11
Lisboa, 1979

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