Preparando o Natal

A espera

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O dia mais comprido do ano é sempre o da véspera de Natal. Como estamos excitados, levantamo-nos muito cedo, ainda de noite, e ficamos à espera até clarear. Depois, ficamos outra vez à espera da noite e só então é que chegam as prendas! Não se consegue brincar com tanta ansiedade! Também não podemos ver televisão porque a sala está fechada, e também não é possível ir brincar lá para fora com o trenó, como as crianças dos postais de Natal, porque voltou a não nevar.
— Quando for grande, vou para a América. Lá há presentes logo pela manhã! — lamenta Klaus, desanimado durante o pequeno-almoço, que toma ainda em pijama, como é seu costume em férias.

— A sério, Klaus? Logo pela manhã? — pergunta Katharina.

Ela ainda não comeu um único pedaço de pão, embora hoje, excecionalmente, haja creme de chocolate e avelãs. Quando se está nervoso, nem se consegue comer.

— Na América, sim — responde Klaus. — Os presentes são colocados dentro de uma meia pendurada à lareira.

— E quando não se tem lareira? — pergunta Katharina, assustada. — Como nós?

Klaus reflete por um momento..

— Nesse caso, a meia deve estar pendurada no aquecedor — responde. — Mas eles chegam logo de manhãzinha… na América.

Com o dedo mindinho, Katharina traça pensativamente um sulco no creme barrado no pão, e leva-o à boca.

— Mesmo assim, não quero — diz. — Se é só uma meia cheia, as prendas têm de ser muito pequenas para lá caberem.

Como Klaus não tinha pensado nisso, concordou que seria preferível esperar pela noite pois, em compensação, haveria melhores presentes.

— Agora vistam-se depressa! — diz, subitamente, a mãe.

Tem um avental posto e não parece nada natalícia…

— Ainda temos muita coisa por fazer e preciso da vossa ajuda!

Klaus não costuma achar lá muito boa ideia ajudar a mãe. Limpar a loiça, ir à cave buscar água mineral, ou pôr a mesa são tarefas sem piada nenhuma. Mas, na véspera de Natal, sempre é melhor fazer qualquer coisa do que ficar parado à espera que acabe o dia.

Veste-se depressa, mas, obviamente, Katharina voltou a ser mais rápida, e Júlia, a irmãzinha mais nova, há muito que está vestida. Ela não se mostra nem um bocadinho entusiasmada com o Natal. Sentada com a sua boneca de pano, Anna Maria, debaixo da mesa, lava-lhe a cara com a esponja da loiça.

— Portanto, primeiro, a salada de batata — diz a mãe, colocando uma grande bacia de batatas cozidas em cima da mesa. — Já estão todas descascadas!

Na véspera de Natal, há sempre salada de batata ao almoço. Embora a mãe diga, com um suspiro, que, na verdade, ela é melhor quando feita de véspera, as batatas só são partidas de manhã, porque Klaus e Katharina têm de ajudar e eles não podem fazê-lo à noite.

— E cortem-nas fininhas! — explica a mãe. — Mas não os dedos! — De seguida entrega a cada um uma tábua de cortar e uma faca, e vai fazer as camas.

Enquanto Klaus e Katharina cortam batatas e Júlia bate com a esponja na cabeça da boneca Anna Maria, o rádio passa muitas músicas de Natal. Uma verdadeira atmosfera natalícia!

— Imaginem, eu vi o Menino Jesus! — declama Katharina, empurrando com a faca as rodelas de batata para a bacia. — Vinha da floresta, o gorrinho cheio de neve…

— Mas tu nem sequer querias recitar o poema! — grita Klaus, zangado. Tinha-se esforçado tanto para fazer a representação do presépio! — E decidimos que íamos fazer o teatro!

— E recitar o poema também! — respondeu Katharina energicamente. — Os dois! … e gelado, o narizinho! E doíam-lhe as mãozinhas!…

— Não! — berra Klaus, zangado. — Não vais dizê-lo!

— Pois trazia um saco! — continua Katharina, já sem cortar as batatas e olhando fixamente para o irmão com um sorriso. — O saco, tão pesado!

— Não dizes! — ordena Klaus desesperado. — Não dizes!

Mas Katharina continuava a sorrir.

— Quereis saber o que continha? — pergunta, ainda por cima com afetação. — Curiosos!

Klaus dá-lhe um encontrão, Katharina começa a chorar, e a mãe aparece e pergunta se ficaram malucos! A discutir na véspera de Natal e, ainda por cima, com uma faca na mão! De seguida a mãe descobre Júlia por baixo da mesa e tira-lhe a esponja. A boneca já tem o vestido molhado nalguns sítios e até na cara, mas de certeza que ainda pode fazer de Menino Jesus.

— Ora muito bem! — repreende a mãe, irritada. — Agora já me lembro o que é o Natal.

Depois respira fundo.

— Foram muito aplicados com as batatas! — comenta. — Muito obrigada! Já estão quase todas cortadas. Katharina, consegues fazer o resto sozinha agora, não consegues? O Klaus tem de me ajudar noutra coisa.

A voz tornou a soar amigável.

— Sim? — pergunta Klaus com cautela. — Em quê?

— Ir às compras — diz a mãe. — Ainda preciso com urgência de…

Dos filhos, Klaus é o único que já pode ir sozinho às compras. Há duas ruas largas para atravessar e Katharina ainda é pequena para isso. Mas Klaus já está no segundo ano e é um serviço que pode fazer.

Klaus levanta-se num ápice.

— Bem feita! Agora vou às compras e sozinho! Trata tu das batatas! — provoca a irmã, enquanto calça rapidamente as botas.

— Ora bem, preciso urgentemente de… — pensa a mãe em voz alta — de farinha. Sim, farinha. Podes trazer-ma, Klaus?

— Claro que posso — responde Klaus, e como é véspera de Natal, enrola o cachecol sem resmungar. A mãe entrega-lhe o dinheiro e ele sai.

Nas ruas há hoje muito poucas crianças. Só em frente da casa de Niki é que está uma menina muito pequenina a brincar, mas de certeza que Niki está na sala a ver televisão. Em contrapartida, o supermercado está cheio. Centenas de senhoras de cara zangada empurram-se para passar nos corredores estreitos e levam nos carrinhos de compras crianças pequenas a chorar. Dos microfones saem, baixinho, melodias de Natal e, pelo meio, uma voz alegre vai dizendo: “Não perca as nossas promoções para o dia de hoje! Desejamos-lhe uma festa feliz!”

Klaus suspira. Não é nada fácil empurrar o grande carrinho de supermercado por entre todas aquelas senhoras! A certa altura embateu contra uma que gritou imediatamente: — Não sabes prestar atenção? — Mas, quando ia pedir desculpa, outra senhora gritou-lhe: — Não sabes andar para a frente? Estás a bloquear a loja toda!
Klaus pega no carrinho, dirige-se depressa para a prateleira da farinha e acaba por não dizer “Desculpe”.

Do microfone sai a melodia  Noite Feliz! e Klaus acompanha a música, sussurrando baixinho, Noite Feliz…

“Estas pessoas não estão nada imbuídas do espírito natalício”, pensa Klaus, zangado. Tanto empurrão… e logo hoje que é a véspera de Natal!

A fila para a caixa atravessa quase toda a loja, de uma ponta à outra. Todas as senhoras têm os carrinhos cheios, mas nenhuma deixa passar à frente Klaus, que tem só um pacote de farinha. Por isso, ele coloca-se no fim da fila e, na verdade, isso não o incomoda muito: a véspera de Natal já é tão longa que até é bom não se despachar com as compras!

Mas as senhoras à sua frente têm muita pressa. Olham para os relógios e ralham com os filhos…Três carrinhos à frente, uma até dá uma palmada a um menino que chora.

— Calas-te? — ralha a mãe. — Calas-te, de uma vez por todas?

“Mesmo nada natalício”, pensa Klaus. “Absolutamente nada”!

Dos microfones sai agora a melodia “O Menino está dormindo…”, que também cantam na escola. E, por isso, Klaus sabe a letra toda: “Nas palhinhas, despidinho…” Também sabe decorar. Só os poemas longos é que não consegue fixá-los lá muito bem, mas isso também é uma coisa sem grande importância. Baixinho, Klaus começa a cantar…

— … Os anjos lhe ‘stão cantando… — e sente que, interiormente, vai ficando mais bem-disposto, exatamente como devemos sentir-nos na noite de Natal.

E foi então que a ouviu. Na fila, por detrás dele, está uma menina que conhece Klaus da sala do infantário de Katharina, e que agora também está a cantar.

— Por amor tão pobrezinho — canta ela e em voz alta!

Klaus encolhe a cabeça: que vergonha! Oxalá ninguém olhe! Ele só queria cantar para si, baixinho, para voltar a sentir o espírito de Natal, e agora toda a gente ouve. Ainda por cima, à menina juntou-se a mãe! O menino está deitado, canta ela, rindo-se. À frente, algumas pessoas viraram-se, e outras começaram simplesmente a cantar. Nas palhinhas… Os anjos lhe ‘stão cantando…!”

Klaus respira fundo.

Muita gente começou a cantar no meio do supermercado, na fila para a caixa. Surpreendidas, as senhoras com má cara e as crianças nos carrinhos deixaram de gritar. Klaus vira-se e sorri para a menina do grupo de Katharina, que lhe devolve o sorriso.

“Não perca as nossas promoções de  hoje!” — volta a dizer o altifalante. — “Desejamos-lhe um Feliz Natal.”

Klaus suspira. A véspera de Natal deve ser assim, pensa, satisfeito. É exatamente assim que deve ser e é assim que está certo! Já ninguém canta na próxima canção, mas percebe-se que muitos a trauteiam. Klaus também, porque não sabe as palavras: é uma canção inglesa.

— Feliz Natal — diz educadamente à senhora da caixa, ao pagar a farinha. A senhora sorri e responde-lhe:

— Feliz Natal! — E Klaus volta para casa a correr.

O pai já regressou do trabalho. Está a pôr a mesa e a cozer as salsichas para a salada de batata, porque o faz todos os natais. Costuma dizer que ninguém na família as cozinha tão bem como ele e, de facto, elas sabem deliciosamente.

A família almoça junta, depois veste-se para a noite de Natal e o pai lê ainda uma história até chegar a altura de abrir as prendas. Só Júlia é que não presta atenção e volta a tentar lavar Anna Maria com a esponja da loiça…Só que desta vez a mãe apanha-a a tempo e Júlia lança-se numa choradeira horrível.

Finalmente, lá fora começa a escurecer.

— Bom, vamos lá — diz o pai, desaparecendo em direção à sala de estar.
Klaus soltou um gemido. O CD com as belas músicas de Natal começa a tocar, como todos os anos e, pelo vidro fosco da porta, pode-se ver as velas a brilhar, uma após outra, muito lentamente. O coração de Klaus começa a bater com força e os joelhos tremem como, até hoje, só lhe aconteceu duas vezes na vida. Finalmente a porta abre-se lentamente.

— Ouçam, eu vi o Menino Jesus — diz Katharina em voz alta com uma entoação maravilhosa!
Júlia grita:

— Áaarvore!

Em frente da janela, mesmo ao lado da televisão, surge, enorme, a árvore de Natal e, de cada uma das três pontas, embrulhada em papel brilhante, pende uma estrela de chocolate.
E Klaus sabe finalmente que o Natal chegou.

Kirsten Boie

Sophie Härtling (org.)
24 Weihnachtsgeschichten zum Vorlesen

N.T. Na Alemanha, bem como noutros países europeus, a árvore de Natal só é enfeitada na própria noite de Natal. Uma surpresa para as crianças, que encontram os presentes debaixo dela! É nesse momento que começam a celebrar o Natal, com leituras, música, cânticos e representações …

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