Preparando o Natal

Um Natal azul

Deixe um comentário

Esta história é acerca do Natal e da caixa por debaixo da nossa árvore de Natal, que não era, de modo algum, suficientemente grande para conter uma bicicleta. Essa caixa, embrulhada em papel de seda azul brilhante com uma etiqueta onde se lia «Feliz Natal, Terry – com amor, Mãe e Pai» era o objecto da minha atenção, porque sabia que encerrava o meu principal presente, e aquilo que eu queria, na verdade, era uma bicicleta. Não uma bicicleta qualquer, mas uma bicicleta azul do Armazém Johnston, em Hill.

No outro lado da árvore estava outra caixa, embrulhada em papel vermelho, com uma etiqueta onde se encontrava escrito «Feliz Natal, Steve – com amor, Mãe e Pai». Steve, o meu irmão de nove anos, queria um comboio eléctrico, e eu tinha a certeza de que era isso que o embrulho continha.

Estávamos no ano de 1958, tinha eu onze anos, e vivíamos em Cedar Falls, uma cidade que nunca cheguei a conhecer bem, porque fomos viver para Iowa City no Outono seguinte.

Tínhamos uma casa baixa, como as dos ranchos, verde-clara e novinha em folha. Era uma rua nova e uma vizinhança nova, cheia de casas novas e caras.

Hill ficava a seis quarteirões e era importante para nós, não apenas por ser uma pequena zona comercial mas também porque era onde ficava a faculdade que a minha irmã, Linda, com dezassete anos, frequentaria no Outono seguinte.

Na segunda-feira antes do Natal, Steve e eu dirigimo-nos a Hill para fazermos as compras de Natal. A tiritar, enfiei, o mais que pude, as mãos nos bolsos. O céu estava ameaçadoramente cinzento, e o vento frio, que sacudia os ramos nus das árvores, parecia trespassar o casaco.

— Anda, Steve — gritei, com impaciência, ao meu irmão. — Nunca mais lá chegamos se não nos despacharmos.

— Uma corrida?! — gritou ele.

Partimos. Eu era mais rápido do que ele, mas às vezes, com um pequeno avanço, ele conseguia vencer-me. Corri atrás dele, esforçando-me por apanhá-lo. Ele parou na esquina, virou-se, com o rosto corado.

— Ganhei — disse ele, ofegante e com ar de triunfo.

Noutro dia qualquer, ter-lhe-ia chamado batoteiro. Mas este dia era especial, por isso deixei-‑o ser o vencedor. Avistava-se Hill. Os candeeiros estavam alegremente enfeitados com correntes de celofane verde e enormes rebuçados de plástico, que tinham um aspecto apetitoso. Steve e eu subimos a colina e passámos pela loja dos refrescos, onde às vezes, no Verão, comprávamos gelados, e pela loja dos animais de estimação, onde geralmente admirávamos os periquitos e as tartarugas. Fomos a uma loja de pechinchas fazer as compras de Natal – pela primeira vez, sozinhos.

O meu irmão tinha as poupanças do mealheiro, um porquinho, guardadas na mão, e, no meu bolso, eu levava quatro dólares, parte dos quais ganhara a limpar o pátio do vizinho.

Na loja demorámo-nos o tempo suficiente para examinarmos a montra. Havia uma série de coisas – Pais Natais de chocolate, bonecas com cabelo comprido, camiões de bombeiros em miniatura, vermelhos e brilhantes, com mangueiras que deitavam água.

— Podias comprar-me aquilo — disse ao meu irmão, apontando para um disco voador azul e redondo que estava num monte de neve artificial.

— Só tenho sessenta e cinco cêntimos — lembrou ele.

Então entrámos. Steve parou perto de um frasco de pentes coloridos e examinou um, atentamente. Em seguida olhou para mim.

— Não tens coisas para comprar? — perguntou.

Dirigi-me à ala que tinha envelopes, blocos e material de papelaria. «A minha irmã vai precisar de papel para nos escrever», pensei. Era um presente perfeito. Pensei em comprar um bloco ao meu pai, uma vez que ele ia voltar para a faculdade em Iowa City. (Aos 45 anos!) «Demasiado banal», pensei. Queria dar-lhe algo de especial, nada de tão ridículo como o chapéu verde que os amigos tencionavam oferecer-lhe.

O meu irmão dobrou a esquina e começou a olhar para os lápis. Peguei no material de papelaria que escolhera e dirigi-me à caixa registadora. Fizera à minha mãe um par de pegas, mas queria dar-lhe outra coisa. Repentinamente, avistei o presente perfeito, um par de brincos em azul-claro que ficariam bem com o seu vestido novo.

Ainda tinha dinheiro suficiente para comprar cromos de basebol, pastilhas elásticas e uma lanterna pequena para Steve. Depois de pagar os meus presentes, esperei por ele na rua.

Ele saiu pouco tempo depois, radiante, com um saco pequeno numa mão, uma moeda de cinco cêntimos na outra.

— Vamos embrulhá-los — disse ele.

Fomos para casa, passando pelo armazém de ferragens, para eu poder olhar para a minha bicicleta. Na verdade, a bicicleta não era minha, mas andava a poupar dinheiro para a comprar. Era tudo o que queria no mundo. Era um modelo italiano, azul e estreita; nunca vira uma como aquela! Planeava ir nela para a escola e à loja dos gelados e visitar a minha melhor amiga, Cathy, embora ela apenas vivesse a meio quarteirão da minha casa. «No próximo Outono, visitarei Iowa City montada nela.»

O armazém estava muito movimentado, e o Sr. Johnston estava a atender um cliente. Hoje não teria tempo para conversar. Daria uma vista de olhos à bicicleta e sairia. O meu irmão esperou perto dos artigos de desporto enquanto eu me dirigi para a parte de trás, o sítio das bicicletas. Lá estava ela, na ponta, tão azul como o céu, à espera que a montassem… Estendi a mão para tocar no assento azul e branco… e parei, estarrecida. Pendurada no guiador estava uma etiqueta com letras maiúsculas escritas à mão! – vendida – dizia.

Parecia que o meu coração parara e o tempo também. Durante três meses, desde o primeiro dia em que a vira, que eu tinha poupado dinheiro para comprar aquela bicicleta azul!

Saí da loja a correr, contendo as lágrimas. Alguém desceria a Rua College na minha bicicleta, alguém que eu conhecia, ou, pior ainda, um estranho, que a deixaria à chuva e à neve até enferrujar e ficar velha!

De regresso a casa, Steve e eu caminhámos devagar. Não notei o frio. Ele queria falar, mas eu pensava na bicicleta que esteve quase para ser minha, mas que já não seria. Uma coisa era certa. Podia partir o mealheiro. Já não precisava dos doze dólares que tinha guardado. Comecei a  pensar naquilo que faria com eles.

Este, o nosso último Natal em Cedar Falls, seria um verdadeiro Natal triste, sabia-o. No ano seguinte, já não teríamos a casa de rancho com as duas lareiras. Em vez disso, teríamos uma pequena barraca de lata que ficara da Segunda Guerra Mundial, tão pequena que mal tinha o tamanho do meu quarto em Cedar Falls. Em vez de uma lareira teria um fogão a óleo; em vez de uma janela panorâmica, que dava para um enorme relvado, teria janelas tão altas que não poderia ver nada, muito menos um relvado. A minha mãe dissera que tínhamos de poupar dinheiro e de reduzir as despesas. Ela tentaria arranjar um emprego, enquanto o meu pai iria para a faculdade.

Não estava particularmente entusiasmada com a perspectiva de cortar nas despesas ou de mudar para outra terra. Gostava de Cedar Falls, das lojas em Hill, da escola e da minha melhor amiga, Cathy. Mas sabia que a educação era importante. Trouxera-nos para a casa nova como as dos ranchos, com um enorme relvado em declive, cheio de oliveiras e salgueiros. Essa casa ficava a muitos quilómetros das casas, quase em ruínas, onde o meu pai crescera; barracas escuras, cheias de correntes de ar, inflamáveis e malcheirosas, fábricas cheias de fumo. E levar-‑nos-ia ainda para mais longe – até à cidade universitária onde o meu pai esperava doutorar-se, e depois para outra cidade universitária onde ele se tornaria professor.

«Se eu tivesse aquela bicicleta azul», pensei alegremente, «não me importaria de mudar tantas vezes de terra». Então, recordando-me daquilo por que o meu pai passara quando era criança, decidi tirar a bicicleta da cabeça. Era preciso pensar no Natal e nos presentes que tínhamos de embrulhar.

Quando o meu irmão e eu chegámos a casa, já me sentia mais animada e entrámos de roldão, tirando os casacos e os bonés. Ouvi Bing Crosby no gira-discos a cantar «White Christmas»*. Isso significava que, durante a nossa ausência, o meu pai fora buscar os discos de Natal. Estava sentado à lareira, onde uma fogueira dava estalidos, a ler. Ocasionalmente, imitava a voz de Crosby, com uma voz de tenor desafinada.

A minha mãe estava a cozinhar, cantarolando enquanto trabalhava. Estava a fazer bolinhos de açúcar em forma de sinos e renas, salpicados com açúcar vermelho e verde. O meu irmão e eu sentámo-nos e comemos dois, acabados de sair do forno, na mesa de piquenique onde comíamos na nossa cozinha. O cheiro tentador dos bolinhos no forno infiltrou-se em todos os compartimentos da casa quente e acolhedora, enquanto Bing Crosby cantava e eu embrulhava os presentes. Quando os coloquei debaixo da árvore, descobri vários embrulhos, pequenos e rectangulares, que o meu irmão fizera.

Um era para mim. «Feliz Natal, Terry», dizia o cartão, «e nada de espreitar.»

Um pedaço de fio prateado desprendera-se da árvore e voltei a pô-lo num ramo baixo. Depois recuei para contemplar a árvore. Decorá-la era uma tarefa da família, e cada ano arrastávamos a caixa das decorações e examinávamos, com alegria, o seu conteúdo. Havia pequenas lâmpadas em forma de vela com água colorida no interior, que borbulhava quando se acendiam. Havia fio prateado, que todos os anos retirávamos cuidadosamente da árvore e guardávamos.

À noite, quando as únicas lâmpadas acesas eram as da árvore de Natal, a sala parecia ficar com um brilho especial, um brilho azul, como se aquela árvore fosse o centro do Universo e todas as promessas do mundo estivessem naquela sala. Aquela árvore emanava calor, felicidade e segurança.

— Olhem — disse a mãe — está a nevar.

O céu, que ameaçara neve todo o dia, ficou limpo, abriu-se, e delicados flocos caíam suavemente no chão, juntando-se à volta dos degraus, cobrindo o pátio, ornamentando os pinheiros pequenos. Caía um silêncio na vizinhança e em cada janela as lâmpadas coloridas das árvores de Natal pareciam cintilar. Até a neve tremeluzia, apanhando e reflectindo as luzes azuis presas nas árvores do outro lado da rua.

Depois do jantar, o meu pai falou do Natal, quando ele era criança. Falou do tempo em que não havia dinheiro suficiente para presentes, nem mesmo para comida. Era um mundo distante que eu apenas conhecia das suas histórias, e, embora tivesse visto as casas em ruínas onde ele crescera, era-me difícil compreender a realidade de ficar com fome ou passar sem presentes no dia de Natal.

Alguns dos seus Natais tinham sido alegres, e eram os que ele mais gostava de recordar. Gostei de o ouvir falar do ano em que ele e o irmão receberam um trenó de madeira, que encontraram encostado à casa numa manhã de Natal resplandecente. Gostava de imaginar o meu pai a descer pela colina a toda a velocidade, a rir com vontade, com a neve a cair-lhe no rosto, cegando-o momentaneamente.

Mas pensava sempre como seria ter fome. Esperava, no meu íntimo, nunca vir a ter um Natal sem bolinhos em forma de catavento e sem as laranjas que a minha mãe me metia sempre na meia.

Subitamente, soube aquilo que daria ao meu pai no Natal – o dinheiro que poupara para a bicicleta. Corri para o quarto e, num pedaço de papel, escrevi: «Querido pai, isto é para os teus estudos.» Dobrei cuidadosamente o papel e meti lá dentro o dinheiro que poupara para a bicicleta – doze notas de um dólar. Pus o papel numa caixa de sapatos. Ele nunca adivinharia o que poderia conter uma caixa de sapatos tão leve como uma pena. Embrulhei-a com todo o cuidado e coloquei-a debaixo da árvore.

E, finalmente, o Natal chegou! Na manhã de Natal, o meu irmão e eu levantámo-nos de madrugada, tentando acordar os meus pais. Esperámos pacientemente, enquanto a minha mãe se dirigia devagar para a cozinha e fazia café. O meu irmão e eu batemos nos presentes por debaixo da árvore e esvaziámos as meias, cheias de rebuçados com fitas, de laranjas, maçãs e bugigangas. A mãe não se podia apressar? Porque tínhamos de tomar café?

Por fim, chegou o grande momento, quando nos juntámos à volta da árvore. A expectativa era grande. Acabara por aceitar o facto de não haver nenhuma bicicleta, mas aquela caixa grande continha outra coisa, uma surpresa maravilhosa. Eu tinha a certeza. Começámos a abrir os presentes. A avó mandara-me um pijama. Dera à minha irmã fronhas bordadas. A minha irmã dera ao meu pai uma caneca para o café. O meu irmão desembrulhou uma bola de futebol e gritou de contentamento.

E lá estava a caixa grande para mim. Abanei-a para ver se chocalhava. Não chocalhou.

— Tenta adivinhar — disse a mãe.

Não fui capaz e acabei por lhe arrancar o papel. Lá dentro estava um grande disco azul da loja das pechinchas. Nevara no momento certo. O meu pai recebeu uma camisa de flanela vermelha que a minha irmã tinha feito, e a minha mãe recebeu um pente do meu irmão e passou-o pelo cabelo.

— Obrigada, querido — disse a Steve.

A minha irmã desembrulhou o material de papelaria e riu.

— Suponho que significa que terei de escrever — disse ela, dando-me um abraço.

Por fim, o meu irmão pegou na caixa grande. Começou por dizer:

— Um disco para… — E depois chocalhou qualquer coisa dentro da caixa.

Os olhos arregalaram-se. Com a mãe a aconselhá-lo a aproveitar o papel, abriu devagar a caixa. Era um comboio eléctrico com um vagão para o gado e um vagão do guarda, amarelo.

— É como a Central de Illinois — disse ele.

Então vi o pai pegar na caixa de sapatos, com uma expressão algo confusa. Desatou cuidadosamente a fita. Meteu a mão e retirou o cartão.

Não disse nada. Quando acabou de ler aquilo que eu escrevera, olhou para mim, depois para a minha mãe. Os olhos pareciam rasos de água.

«Terei estragado o Natal?» Vimo-lo num silêncio constrangido. Depois, quando entregou o cartão à minha mãe, levantou-se, vestiu a camisa nova, meteu o pente novo num bolso e o dinheiro no outro.

— Parece que estou pronto para a faculdade — disse, rindo. Então a sua expressão mudou e olhou para todos nós. — Este é o mais belo Natal que tive. Espero que também seja para vocês — disse. Piscou o olho à minha mãe.

A minha mãe alisava as pegas que eu lhe dera com as mãos. Pusera os brincos azuis. O modo como sorriu para mim mostrou-me como estava contente.

Enquanto o meu pai fingia beber da caneca, peguei na locomotiva, preta como carvão, do comboio do meu irmão.

— É linda — disse.

Ele sussurrou-me:

— Talvez recebas uma bicicleta no dia dos teus anos.

— Talvez — respondi. O meu aniversário era dali a onze meses, e, por enquanto, aquelas colinas teriam de passar sem mim.

Mas, quando peguei nos lápis azuis que o meu irmão me dera, de repente compreendi. O Natal era mais do que dar ou receber presentes.

Era o facto de o meu irmão ter esticado as mesadas para nos comprar presentes. Era o carinho com que eu fizera aquelas pegas. Era o facto de a minha irmã estar ali, antes de ir para a faculdade. Era a minha mãe atarefada na cozinha, a cantar «Noite Feliz»,e omeu pai a pôr o disco de Bing Crosby a tocar um sem-número de vezes. Eram os cânticos de Natal e os bolinhos e as lâmpadas coloridas, uma família numa cidade pequena numa manhã em que a neve caía, abundante. Era o amor e a partilha e o convívio. Era tudo o que era intangível – recordações, tradição, esperança –, era um vislumbre, por um momento – um vislumbre de paz. A minha mãe interrompeu os meus pensamentos.

— Terry, podes ir ver se o café está pronto?

Obedientemente, corri para a cozinha, onde senti o cheiro de bolo de café e canela a cozer no forno. Cresceu-me água na boca.

— Está pronto — gritei, e peguei em duas chávenas de café. Em seguida, virei-me para ver se os pratos do pequeno-almoço estavam na mesa.

Não queria acreditar no que os meus olhos viam. Ali, encostada à mesa de piquenique, estava a bicicleta do armazém, mais brilhante, mais polida e azul do que alguma vez fora, a cintilar como uma visão. Respirando fundo, aproximei-me e toquei no cromado brilhante, no assento de cabedal, nos pneus.

Então, suavemente, Bing Crosby começou a cantar «White Christmas» na sala de estar. Sorri. Podia ser um Natal branco para toda a gente, com camadas de neve nos relvados, agora brancos e macios. Para mim era um Natal azul. Azul era a cor da promessa e da esperança, do ano seguinte de sempre, das estradas que percorreria, naquela bicicleta e noutras. Azul era o cume da colina, o vento nas minhas costas, a liberdade.

Feliz, levantei o descanso com o pé e fui de bicicleta até à porta da rua.

Terry Andrews

Jack Canfield; Mark Victor Hansen
Canja de galinha para a alma – O tesouro do Natal
Mem Martins, Lyon Edições, 2002
(adaptação)


* Em português, «Natal Branco». (N. da T.)

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s